quarta-feira, 30 de agosto de 2017

24 de Maio de 2501 a.C. – A Fundação do Nada



O Clube do Altruísmo Mnemônico [otherwise conhecido como Sociedade Histórica do Centro-Sul-América] foi fundado hoje em 1861, fechado no ano seguinte pelo paranoico-repressivo pelo regime da época [o qual passou para a história com o nome pouco lisonjeiro de Governança do Medo] e refundado em 1910 na atmosfera de licenciosidade da brevíssima Primavera Libertária de 1910. 

Referido Grêmio, que, apesar de sua repercussão posterior e presença no imaginário popular, nunca passou geralmente de sete sócios, chegando a treze em seu tempo de auge, decidiu [de maneira que pode ser apodada, sem nenhuma injustiça excessiva, de arbitrária] que a data de hoje seria o marco zero da história do território que [apesar das mudanças de fronteira decorrentes dos duvidosos tratados e das guerras] é com alguma consistência denominado de Brasil.

Se o dia da fundação saiu como coelho de cartolas intelectuais, o ano foi ainda mais arbitrário. De fato, por alguma razão se tinha estabelecido que a gruta Maxência [que os historiadores brasileiros consideram a mais bela do mundo] e seus 347 pintores rupestres [sendo esse tão exagerado número compreensivelmente posto em dúvida] surgiram no ano 2.500 a.C. E a Sociedade [em decisão tão lógica quanto destituída de senso] decidiu colocar no ano anterior a fundação do país.

Não foram poucas as críticas de que isso refletia o arbítrio do próprio país. Mas tais críticas têm pouca importância, fundamentalmente porque a elas poucos ouvem.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

23 de Maio de 1944 – Um pouco de amor na água de coco



Eu não era quem era ­– disse-me ele, e não direi a você quem sou. Quando a mim, chame-me Graco, Caio, Ernando ou o que lhe apraza. A ele chamarei apenas ele. Tomávamos uma cerveja – na verdade não tomávamos nenhuma pois ele não bebe. Continuou [a mão no copo de água de coco]:

Eu pensava ser Machado. Ou Proust ou Shakespeare, como queira. Pensava em aquecer meus pés sobre uma pilha de livros que eu haveria escrito.

Não fiz nada disso. E não fiz porque não o queria. 

- O que você queria – e ao fazer esta pergunta tornei-me ele [calças curtas, talvez. Ou aos vinte, a caminho de aula talvez não muito interessante. Mais tarde, em algum escritório possivelmente]. E continuei, de súbito pesado como minhas palavras: Você se acha um fracasso?

Ao contrário, sou um sucesso. A mão no copo não tremeu. Obtive o que queria. Fui amado, e amei. Uma mulher. O meu eu nos meus vinte acharia isso tolo. Não o era. Era tudo.

E os livros, perguntei – ao lembrar que fora ele quem me mostrara Kant e Rousseau, e eu sempre ansiara pelos seus próprios. Esperava [confesso] um “não valem nada!”

Valem muito [disse-me]. E virão. Mas serão confeitos. Em uma deliciosa torta, com a qual eles não têm muito a ver, mas à qual não deixam de acrescentar certo brilho. 

Essa analogia culinária me surpreendeu. O sol não se punha [estava a pino] uma hora bem pouco romântica. Apesar disso pensei no amor. Sorvi um gole de água de coco.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

22 de Maio de 1907 – Dankon



Dankon – disse-me Lázaro. E eu [em princípio] não compreendi. Não a palavra – o vocábulo que ele pronunciara se aproximava por demais do alemão Danke para que eu deixasse de reconhecer que me dizia Obrigado

Não compreendi por que me agradecia. Naquele porto do Recife naquele quente mês de maio [como são quentes todos os maios de todos os meses no Recife] não reconheci a barba e [acima de tudo aquele olhar de quem já viu tudo, e não teme o que ainda poderá vir a ver] eu não lhe fizera nada. Sequer ajudara com sua mala - vinda de um cargueiro polonês de nome impronunciável que ainda lembro como Zbigniew

Conversamos – a circular na beira do cais e sem que ele demonstrasse nenhuma pressa de ir a um hotel. 

Conversamos – e conversamos em alemão, depois em inglês [eu com minha natural deferência para com forasteiros] e finalmente falávamos [eu sem pensar muito] em língua ondulante como ondas ou minha própria língua – falávamos em português. Espantei-me que o soubesse. Ele se espantou que nesta terra se falasse a língua das curvas e das dunas – pois como sabia muitas, era-lhe difícil saber sua língua natal.

Soube-lhe [naturalmente] o nome Lázaro. Instado ao sobrenome, disse-me: Sou quem espera. E sem perceber, falávamos em língua que misturava todas. Como eu disse, sem perceber.

[Talvez com excesso de pieguice] espero a volta de Lázaro. Chamam-me o Esperador. O Esperantista. O Esperanto.