terça-feira, 31 de janeiro de 2017

31 de Janeiro de 1897 – A Fundação do Partido Antiimperialista Brasileiro

 O Movimento Nacional e Ubíquo para utilização de Nosso Superior Senso para a Comodidade, o Sossego e a Paz em Todos os Povos ganhou [compreensivelmente, pelo seu tamanho] o apelido de Partido Antiimperialista e este apelido, embora estabelecido na Historiografia, dificilmente poderia ser mais inadequado. Para someçar os Comodistas-Sosseguistas [como eles se denominavm no princípio] não eram exatamente as pombas da paz de que ganharm fama depois – e a menção a um Superior Senso dos brasileiros [constante no próprio nome de seu movimento] o prova.

Os Historiadores da Escola Detalhista [1955-1976] atribuíram o [relativo] sucesso de tal movimento a um equívoco. O equívoco: o Brasil na época não era imperialista – ao menos, não ainda. O Peru tinha sido reduzido a três províncias brasileiras, a Argentina era protetorado e uma improvável união entre dois vizinhos fora forçada dando criação ao páis de gosto duvidoso chamado Chilívia. Mas [alegam os historiadores de tal escola] a Europa não havia sido masssivamente invadida e não o seria ainda por quase quatro décadas e palavra-chave aqui é massivamente. De fato, o Brasil já arrancara manu militari pedaços do Continente Velho por duas vezes e a faria em breve por uma terceira.

Malgrado essas imprecisões, o chamado Partido ganhou fama [merecida ou não] de pioneiro no movimento anti-invasões – e o Brasil tornou-se [ao mesmo tempo] a Pátria da Paz e o Paraíso da Guerra – o que para alguns radicais não deixa de ser fonte de orgulho.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

30 de Janeiro de 597 A.C. – O Império do Nada

 Ninguém sabe [e na verdade não há mais que uma meia dúzia ou menos de estudos minimamente sérios a respeito] por que o dia de hoje e o ano acima foram escolhidos para simbolizar o período em que [no atual território do Brasil] nada havia. [De fato, a hipótese mais plausível é que a data de hoje seria exatamente o aniversário do historiador José Osvaldo Spengler-Herrera, o que ainda deixaria por explicar o ano]. E o livro de Spengler-Herrera, surpreendentemente publicado em alemão [Brasiliens Erfolg – o sucesso brasileiro] foi o primeiro a dividir a história barsileira em fases – a primeira delas [não sem algum drama] denominada de O Império do Nada.

Esta Fase [caracterizada muito mais pela ausência de características] principia no começo dos temposaté a data de hoje, quando [segundo essa data arbitrária] os pioneiros Azkidis chegaram [no inevitável barco dos pioneiros] à costa hoje perto de Callao, no Peru [naquela época o Brasil atravessava todo o continente, sem consideração].

Império do Nada – nada mais seria que uma fase em que não existiam humanos no atual território [embora esta versão seja contestada]. De fato [e isso colaborou para o estado de semi-ostracismo que a obra de Herrera amargou por três décadas e meia] o pensador afirmou que A Terra Brasileira se tornara então habitada por gigantes [e afirmou que em certo lago em Goiás existem múmias de um casal de seis metros de altura]. Isso passou para a história como ficção, embora pretendesse ser história.

domingo, 29 de janeiro de 2017

29 de Janeiro de 834 – O Dia da Reprodução Obrigatória

Por incrível que pareça [talvez pelo desproporcional interesse que os assuntos ainda que remotamente sexuais parecem despertar] sabe-se precisamente a data em que o Principado Zankhai [que ocupava uma faixa de costa do atual Sergipe até o Espírito Santo] decretou o acontecimento lembrado por desde patriotas até escritores de livros pouco chegados à pureza.

Os ossos do almirante Zheng Ho Chi, O Solitário, já se tinham transformado em pó e os navegantes mandchurianos [um dos componentes do Brasil] já se tinham [quase] esquecido de sua origem oriental, mas um problema persistia – a falta de gente.

Bayan Zheng [que não era descendente do fundador do ramo chinês do Brasil mas achou mais importante o Poder que a veracidade] decretou ser a continuidade mais importante que a decência: declarou que [naquele dia] todos os que tivessem condições mínimas de reproduzir-se deveriam realizar o ato que levam a tal consequência. Para completar duplas, homens e mulheres da tribo Harik [que já tinham levado muitos da comunidade Zankhai para o céu dos guerreiros em guerras seculares] foram convidados [ou forçados] a se integrarem.

A versão mais confiável é a que tem menos graça – Bayan Zheng [de resto um homem absolutamente desporvido de sex appeal] em um palco e através de um sino ficou a dar ordens – primeiro Tirem as roupas, depois Copulem, depois Terminem.

Claro que os escritores pornográficos descrevem a cena de mais mais colorida, e [embora quase que seguramente falsa] bem mais interessante.

28 de Janeiro de 1807 – A Primeira Poetisa do Brasil

 Vangelis pôs o pé na recém construída doca do porto de Guarapari em algum dia de agosto de 1773 [atrás e na memória a sua Albânia natal] e trinta e quatro anos depois sua neta Adria Benita beijou sua mão, em algum lugarejo perto de Vila Bela na fronteira com a Bolívia. Beijou-a, devolveu-a a lugar e viu levarem a grande caixa com seu avô dentro.

Adria Benita [olhos negros, cabelos negros e sobrancelhas em forma de asa de gaivota – como diria em um de seus poemas muito tempo depois] voltou para casa e [à luz de um par de velas de óleo de baleia] escreveu: Hoje aos nove anos aprendi a ter saudade [na verdade tinha oito].

Os poetas do Círculo do Autêntico Romantism o Pátrio [muitos anos depois] romantizaram esse pequeno episódio como sempre o estalo mágico que fez a jovem colocar seus sentimentos em palavras. Na verdade a menina Adria já escrevia antes. Influenciada pelo avô, parecia desconhecer a existência do pai e ter uma discreta repulsa à presença da mãe –as histórias [segundo alguns mentirosas] do avô os livros de latim [que ela ainda não lia] e as jabuticabeiras do quintal faziam seu pequeno mundo [em verdade, maior do que o que as pessoas em sua volta viviam.

Claro, a partida do velhinho louro marcou. O grande tema daquela que passou para história como primira poetisa do Brasil [um título contestável, porque houve outras] foi a perda. É o que explica o seu poema [conhecido de toda colegial brasileira] De súbito aprendi que o passado existia.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

27 de Janeiro de 1935 – O Brasil invade a Europa

- Vamos começar esta brincadeira, então.

Exatamente às 4 horas e 31 minutos o capitão Petronius Silvianus [do tombadilho do Submarino XIIIc] perdeu a oportunidade de proferir alguma frase grandiloquente para os livros de história repetirem. Apurou os olhos em meio à bruma do Atlântico Norte, mordeu [pela ducentésima-terceira vez naqueles dias] a ponta de um charuto e viu um fio inexplicavelmente violeta-escuro ao Horizonte – era a Europa. Os corações dos marinheiros pulavam fundo.

O Brasil invadia a Europa. Em duas pontas – uma delas a cargo do comandante Silvianus, da Força Submarina de Ataque e Destruição.

Às 9 horas e 47 minutos Silvianus pisava a areia fofa da Praia da Ribeira do Cavalo [seus homens a levar fardos de comida e munição, cansados de esperar um contra-ataque que não vinha].

Subitamente sem ter muito o que fazer, Petrônio Silvianus divagou quase feliz. O Conselho dos 18 pareceu querer matá-lo de suspense ao deixá-lo esperando ao largo por uma ordem de invasão, por quase duas semanas. O desembarque sem um tiro [exceto por um desmiolado acriano que acertara uma gaivota] era quase anticlímax. A invasão foi sucesso – um sucesso quase a decepcionar.

Hoje a Europa, depois o Mundo – pensou, quase com tédio, a repetir o slogan zilhões de vezes repetido. Via a bruma, os penhascos, as sardinhas que pulavam nas ondas cheias de veículoss anfíbios brasileiros:

Então essa é a Europa!

E acrescentou:
Grande Coisa.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

26 de Janeiro de 1931 – O Conselho dos Dezoito toma o Poder

- Você vai ser fuzilado. Aceita um café?

Na primeira das versões, depois disso o Conselho convidou o Presidente Washington Luís Pereira de Sousa para o fato anunciado - que ocorreu às 3:33 deste dia, em horário planejado segundo fórmulas de cabala.

Na segunda delas [mais misteriosa] o Presidente foi levado para uma fazenda de reeducação nas margens do rio Tocantins, vindo a morrer em idade avançada [após a lavagem cerebral] como um anônimo admirador do novo regime.

Ne terceira versão, importa pouco qual das duas primeiras é real – importa que algum dos golpistas disse

- Não gostamos daqui também. Tem cheiro de mar.

E os novos donos do Poder levaram a capital para o interior.

Entre as datas que disputam o título de Momento Inicial do Expansionismo Brasileiro este 26 de janeiro é uma favorita. Naquela madrugada Dezoito [dramaticamente] Encapuçados [secundados por algumas dúzias de outros] invadiram o Palácio Presidencial, sumiram [de alguma forma] com o Presidente da República e instalaram um regime cuja terceira marca mais importante era a disposição de arrancar pedaços de outros países.

A segunda era o horror pelo mar – instalaram a capital em Óbidos, no meio da Selva [o que não os impediu de criar uma marinha de guerra de submarinos de ataque].

A primeira era o mistério. Ninguém nunca viu [ao menos de maneira precisa] os Dezoito Golpistas que tomaram o poder. Um vidente na China [dizem] previu tempos sombrios – segundo alguns, com razão.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

25 de Janeiro de 1952 – Sequestraram o Papa!

O Marechal-Brigadeiro Tulius Treviranus IV [de ilustre família e uniforme azul-escuro sem nenhum vinco] apareceu no alto da escada do Combate Ivb-Sirius [o caça-bombardeiro brasileiro de 4 turbinas, o então único no mundo], tirou as luvas [de algodão polido da Paraíba] e acenou para os trêmulos repórteres do Corriere della Sera na pista do Aeroporto de Fiumicino. Além deles tremia o Presidente da Itália, como a se perguntar o que aqueles aviões da maior potência mundial faziam ali.

Ninguém sabia da visita do Comandante-em-chefe das Forças Brasileiras na Eurásia Ocidental até meia dúzia de horas antes. Treviranus cofiou o bigode louro [fazia não pouco sucesso entre as garotas] cumprimentou a sorrir as transpirantes autoridades peninsulares e, antes de entrar num blindado da 18a Divisão de Infantaria Mecanizada Mineira [apelidada A Caipira] perguntou não sem ingenuidade:

-Qual o caminho para o Vaticano?

Uma das acusações que se faz ao Brasil [e talvez não interamente sem fundamento] é a de ter sequestrado o Papa. Em verdade Pio XII [velhinho e sem muito saber de realidades] parece ter se deixado seduzir pelo charme do Brigadeiro e pelos mísseis Terra-Ar da Divisão Caipira logo à sua janela. Aceitou o convite para reinstalar-se no Brasil.

E assim por 14 anos a sede da Igreja Católica foi a pequenina e capixaba Morro Azul. Os cardeais meditavam e nomeavam santos entre as sapucaieras e a vigilância da polícia política. Mas parece que não foram infelizes. Ou foram. A questão é aberta.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

24 de Janeiro de 1936 – A Descoberta dos Estados Unidos

João Silva desembarcou no porto de Nova Iorck [a grafia já viera errada desde a passagem] e tomou duas atitudes: recolheu sua aliança de casado [em atitude pouco explicável, já que Silva (segundo os melhores historiadores) comportava-se fiel em absoluto] e mudou seu nome para John Silvester.

A guerra na Europa demorava um ano [depois dos desembarques iniciais em Cezimbra e Les Barcarès] e mesmo com a esmagadora superioridade tecnológica das forças brasileiras [além da aliança do movimento independentista occitano] o maior número das forças inglesas, francesas e outras impunha uma campanha mais demorada do que se pensava. A Confederação Aliancista Brasiileira [então nome oficial do país] precisava de aliados.

E voltou-se para repúblicas do algodão e do trigo às quais ninguém dava importância antes, países eternamente não-ricos situados ao norte do Equador, conhecidos como tal pois praticamente só exportavam esses dois produtos.

John Silvester viajou [como muitos outros agentes] para divulgar esse país subdesenvolvido para o público brasileiro. Sua diferença era que John parecia realmente gostar dos Estados Unidos da América. Sua experiência Yanque lhe valeu escrever o clássico I like USA e o roteiro dos filmes Entre o Mississipi e as Rochosas e Além das Rochosas.

Seu entusiasmo por um país periférico causou que o Ministério da Propaganda o chamasse de volta. Silvester recusou, passou a viver pobremente em uma casinha em Manhattan. Dizia: aqui é terra pobre. Mas é terra feliz.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

23 de Janeiro de 1911 – O Pacifista

Deus, o Destino ou o Diabo [e o fato de essas três palavras começarem com a mesma letra não deixou de dar margem a interpretação ocultistas] quis que [de todas as pessoas] José Fernando Gonçalves Guerra Silva de Souza dissesse o que todos pensavam. A ironia vem de que o grande poeta brasileiro do tempo tivesse como nome mais comum Fernando Guerra, em contraste com a atuação pela qual se tornou mais conhecido.

Fernando Guerra publicara nove opúsculos, o maior deles com 85 páginas. Seus poemas [que não deixavam de ter alguma quantidade de fãs] se concentravam na temática das flores e dos riachos, e da beleza da relva no estio. Seu verso mais popular Sinto-me como um ator numa peça que nunca chega ao final convenceu a críticos e poetas de que aquele cara falaria sobre coisas do coração e da melancolia, e só.

Naquele 23 de janeiro Fernando Guerra se desviara de fileiras de soldados [poucos dias antes o Poder no País relembrara os 12 anos do assassinato de Campos Sales, o que ocasionara uma onda armamentista]. O poeta subiu ao púlpito [faria um pequeno sarau] e disse O Brasil se tornou imperialista.

A Junta Provisória confinou-o em alguma ilhota. Depois de solto voltou a falar simples Antes éramos inofensivos – hoje os vizinhos nos temem.

A Junta [e a turba ignara] enviou o poeta a um campo de reeducação. No mesmo dia [em canto de página]imprimiu-se a novidade de treinamento de tropas na fronteira do Peru. O peta [dizem] sentiu-se cada vez mais ator, o Brasil como palco.

domingo, 22 de janeiro de 2017

22 de Janeiro de 1830 – A Invenção do Brasil

Exatamente aos cinquenta e três minutos da data de hoje [sem que ninguém saiba exatamente por que essa hora tão precisa tem importância, ou mesmo por que foi registrada] o Duque de Angoulème [barba branca apesar dos cinquenta e dois anos] pousou a espada na mesa de jacarandá [não viera de nenhuma batalha mas gostava de gestos memoráveis] e disse [suave como gatinho]: não existimos. No fundo nenhuma comunidade existe. Ninguém se considera parte de uma comunidade, exceto quando se vê face a face, e olhe lá. Nós queremos que pessoas que moram a dois ou três mil quilômetros uma da outra se considerem parte da mesma comunidade. Isso é impossível.

E acrescentou, bravo como tigre:
  • Só que nós o faremos, com muito Amor ou na Marra!
E para deixar claro quem era brasileiro, pegou o lápis e o papel:
Os brasileiros tem as seguintes tradições... Digamos, que tradições? Que tal uma festa em março? Outra maior, em outubro?

Em dois dias, sete horas e vinte e nove minutos de trabalho [ninguém sabe o por que de tanta precisão, nem por que alguém se teria dado ao trabalho de anotá-la] aquele grupo de advogados, fazendeiros, dois geólogos e um duque tinha inventado roupas típicas, comidas tradicionais, heróis históricos, datas memoráveis, danças folclóricas e até um tipo físico tipicamente brasileiro a ser cunhado em moedas.

A História não anotou o nome de quem gaguejou:

  • E quem não gostar dessas coisas?
  • Não é brasileiro! - Bradou o Duque. - Inventamos o Brasil agora!

21 de Janeiro de 1899 – O Assassinato Muito Culto e Elaborado

Pelo desenvolvimento da Indústria Nacional, pela Independência Tecnológica e pela Libertação do Brasil da condição de mero fornecedor de Matérias-Primas! - talvez tenha sido este o mais longo grito proferido antes de um assassinato político, desde o Até tu, Brutus, meu filho, que por sinal foi dito pelo assassinado.

Manoel Ferraz de Campos Salles fazendeiro de café colocou o primeiro pé no coche que o levaria ao Palácio onde assinaria [como sempre] mais alguns decretos pagando bancos no exterior. Antes que colocasse o segundo, pedaços de chumbo que voaram da boca de uma Browning semi-automática de fabricação belga lhe perfuraram em três pontos acima da cintura, levando-o mais cedo para aquele grande Cafezal no Céu, como disse [em tirada de gosto não exatamente esplêndido] o Arcebispo da Capital, nas exéquias.

O Brasil possui [segundo historiadores talvez em exagero patriotas] a honra de ter sediado o mais elaborado de todos os crimes políticos. Os assassinos de outros países berram simploriedades como Abaixo o Tirano ou Viva a Revolução! Os terminadores do então Presidente animavam-se de propósitos desenvolvimentistas, os quais a futura vítima insistia [segundo eles] em obstaculizar, em seu afã de pagar juros.

Os perpetradores nunca foram capturados. Um deles deixou mensagem arrependendo-se, não do assassinato, mas de ter usado uma arma estrangeira, prometendo que, logo que houvesse uma pistola genuinamente nacional, ele a usaria com gosto e patriotismo.

sábado, 21 de janeiro de 2017

20 de Janeiro de 1881 – O Filósofo do Tudo

O Brasil conquistou o galardão de maior potência mundial. Seus veículos movidos a força de repulsão patrulham os céus do planeta, garantindo o controle das guerras. Governos amistosos em outros países são recompensados, enquanto algum tirano que ousa disordar da Pax Brasiliensis é punido com uma temporada de férias forçada em uma ilha fluvial no Rio Xingu [a punição já foi pior, mas hoje a maior potência mundial é um país pacifista, ou quase, segundo detratores]. O país não mais participa dos Jogos Olímpicos, pois os mesmos estavam a perder a graça, pois o país ganhava tudo.

Essas vantagens deveriam nos encher não de orgulho, mas de humildade – pensou [como a profetizar o futuro] em um por do sol na Serra da Ibiapaba um garoto magriço de 19 anos, e quando o pensou o Brasil ainda era um país atrasado, a produzir matérias primas como café, dependente de escravidão, e no qual encontrar um alfabetizado semelhava a ganhar na loteria, de tão raro.

Hoje, e já há muito, Raimundo de Farias Brito é incensado como o maior filósofo de todo o Mundo [estudos o colocam como superior aos gregos Platão e Aristóteles]. É difícil imaginar algum período de sua vida em que não era famoso, mas isso já ocorreu.

O Futuro Pensador Maior meditou – temos um por do sol. Há algo dentro de um por do sol? E ao fazê-lo começou a procurar a essência de Tudo, o que, como se sabe, é a base da filosofia moderna.

A qual começou no Brasil, como [quase] tudo que é importante.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

19 de Janeiro de 1965 – O Maior Amante

Tácitus Marcellus ganhou [talvez não de maneira inteiramente justa] o título-insulto de Precursor da Cultura da Superficialidade que impera em nossa Infeliz Época. De fato Tacitus Marcellus [mais conhecido como Tácito o Grande, por razões que serão explicitadas a seguir] pouco tem a ver com qualquer onda de qualquer comportamento negativo, e de fato, não tem ele a ver com qualquer outra coisa além disso.

Em 1947 o Brasil passou o PIB da [até então] maior potência do mundo. Em 1955 foi testada a bomba fotônica [apesar dos desmentidos oficiais do temido SIM – Serviço de Inteligência Militar brasileiro] e em 1962 a indústria têxtil maranhense [a maior e mais dinâmica de todo o mundo] lançou a minissaia [em aparente contradição a seus próprios interesses, pois o novo produto gastava relativamente pouco pano].

Essse conjunto de sucessos militares, políticos e modísticos provou ser o Brasil idiscutivelmente o país líder do mundo, desde a alta geopolítica até a futilidade.

Pouco demorou para esta liderança passar para o cinema Hard: o país [para escândalo dos que o consideravam irremediavelmente católico] lançou no dia de hoje o primeiro filme em que os tecidos diáfanos e as modelos nuas na praia em tomadas bem de longe cederam lugar ao baixinho e com cara de boboca a comer melancia Tácito a mostrar os epítomes da masculinidade a três grupas mancebas.

O chauvinismo brasileiro não tardou a considerar isso motivo de orgulho, e a batizar o dia de hoje como Data Maior do Pornô Nacional.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

18 de Janeiro de 1785 – A Criação da Impossível Língua Intransmissível

Chamava-se Eskualdualk a língua que um homem improvável com o nome pouco verossímil de Coriolano de Freitas  criou no decorrer da década de 1780.

O  baixinho Coriolano [era ele mesmo quem lembrava sempre sua condição vertical, talvez para conceder-se um status de vítima] nascera [esperavelmente] em um engenho à beira do rio Mamanguape – o açúcar barato mas os custos mais baratos ainda deixavam patacas bastantes nas bolsas de couro de seu pai para enviar o filho para estudar em Coimbra, Leipzig, Montpellier e Uppsala. [De fato o futuro linguista não conhecera a mãe; quando a seu pai, era adepto da velhíssima escola Dou Dinheiro e Chibatas, e esses fatos (segundo seus três biógrafos) não deixaram de influenciá-lo na busca por uma língua-mãe].

Dessa europeia salada o jovem Coriolano não trouxe Tomos de Direito Romano nem Doenças do Amor [as grandes bagagens dos estudantes da época] mas um ódio imenso pela Europa. Não por um país isolado, nem pelas pessoas, mas pela Europa, abstrata.


Odiando o Continente, não poderia falar uma língua gestada no Continente. Coriolano criou [como língua de um país que ainda não existia] um conjunto de 7.890 palavras e partículas. Eram poucas pois cada palavra tinha mútliplos significados. Eskualdualk significava tanto Eu te amo, como As patas do cavalo já estão ferradas como O Por do Sol não existe mais [bem como o nome da própria língua]. Essa  multiplicidade de sentidos não deixou de suscitar controvérsias.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

17 de Janeiro de 1928 – Clarissa Mulher

Vejo Clarissa em pose com as mãos juntas sobre o queixo [quase em oração, como se toda sua vida não fosse uma oração literário-poética]. Na verdade não vejo – nós vemos: é assim que a grande poetisa  do Movimento Univérsico-Patriótico passou para a História e para os retratos nas salas da Diretoria das duas dúzias de escolas que levam seu nome.

Foi no dia de hoje exatamente às 13 horas e 13 minutos  [uma coincidência que não deixou de gerar especulações cabalísticas] que seu Terceiro Namorado terminou a última pincelada [sobre a sobrancelha esquerda] do retrato que fixou a imagem da criadora da abstrusa Ode ao Barro do Rio Guajará e das ousadas [e passíveis de múltiplas interpretações]  vinte e duas estrofes do Beijo teus Pés Minha Terra Meu Homem.

Clarissa Müller [o sobrenome explicado por um ascendente do Brandemburgo que aqui aportara lá pelo século XVI] teve sete namorados – e todos a amaram, e todos a choraram. Seu principal amor [no entanto e seguindo a tendência dos melhores críticos] foi a Terra.

Não o País, a Terra. A autora do poema que começa pelos celebérrimos versos Abracemo-nos, simplesmente à beira, com nossos pés a molhar não queria batalhas, gritos em Ipirangas ou mesmo exaltação de montanhas inúteis. Para ela, a Pátria era um namorado, com o qual passeava com as mãos levemente dadas, sem prestar muita atenção ao pôr do sol.


Clarissa [Müller Mulher] escreveu a letra do Hino Nacional Brasileiro. O mesmo Abracemo-mos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

16 de Janeiro de 1823 – Júlio, O Impiedoso

Júlio Ferro parecia delicado e sonhador, e era e não o era. Sonhador sim – o 7º Presidente da República do Centro [pois o Brasil como tal não existia] tinha na sua cabeça possibilidades ainda não realizadas do Mundo.

Após contados os 999.000 votos que o elegeram [número considerado por demais redondo e suspeito, principalmente levando-se em conta o fato de que os outros candidatos somaram 1.000] proclamou-se Presidente [o nome oficial era Secretário do  Supremo Conselho] e logo no primeiro discurso [na capital, nas margens do rio que os extintos indígenas chamavm de Tocantins] mostrou por que não era delicado.

A República do Centro já abolira a escravatura, concedera voto a muitos. Mas antes de o País se tornar sonho de utopias para filósofos europeus, o novo Presidente revelou seu sonho [na verdade seu plano pessoal]: todos os Centralianos [era então o nome que tomavam os Brazylyanos da região] deveriam ter educação – obrigatória, gratuita e universal.

E prosseguiu, papel do discurso na mão e barbicha: Tudo se faz melhor quando se tem educação. Até estufar pólvora em um canhão, o alfabetizado realiza mais rápido. Para mirar melhor a testa do inimigo, o homem educado faz com melhor eficiência. Até enfiar baionetas em pescoços o preparado faz com menor desperdício!

Educaremos a população para fazer a Guerra!

Júlio Ferro parecia delicado, e não o era. O país que dirigiu infelicitou as regiões Centrais e Periféricas por 37 anos, até tornar-se potência.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

15 de Janeiro de 1571 – Batalha de Takeda

A Data Maior da assim chamada Idade Média Brasileira não foi, ou ao menos não deveria sê-lo. [Por surrealista que pareça o Brasil nem sempre foi a terra Onde Viceja a Infelicidade Zero, como se afirma com algum possível exagero. Como o Continente do Norte hoje, o Brasil do Ontem já teve suas mazelas].

E uma das mesmas foi a chamada Idade Média Brasileira, cujo momento máximo [e mágico] ocorreu hoje, na Borda do 99º Deserto [em algum lugar no centro da atual Minas Gerais] em um confronto entre as tropas do clã de Takeda e os três clãs do Sul-Sudeste, que se lhe opunham na tentativa de conquistar o Vale [na época, só havia o Vale – a noção dessa grande potência mal existia].

Anti-herói por vocação e excelência, Johaness Takeda herdou de seus ascendentes nipônicos e holandeses um par de suíças que se encontravam por baixo do queixo e um odor de quem batia recordes de semanas sem ver água a não ser no esôfago [a bem da verdade, pode ser alegado como atenuante o fato de que os banhos seriam mesmo raros nas campanhas militares tão longas].

A Batalha que leva seu nome tem a seu crédito o fato de ter sido bem pouco sanguinolenta. De fato o líder do Feudo Sul-Central limitou-se a ficar parado, por genialidade militar ou porque dormia, sendo que os inimigos tomaram a última interpretação, e aterrorizados se renderam.

Historiadores embriagados de patriotismo tomaram essa data como sendo o momento incial para a ascensão do Brasil à Grande Potência de Hoje.

Outros dizem ser isso nonsense.

domingo, 15 de janeiro de 2017

14 de Janeiro de 1954 – O primeiro experimento da Força Repelente

O Fundador da Indústria [pós] moderna brazylyense teve um pai e mãe que não perdiam uma oportunidade de lhe demonstrar como ele era mediano – e ele era realmente mediano. A começar do nome – João Gonçalves Sousa Silva não consiste em nome em verdade destruidor de corações. João Gonçalves era bom em algumas matérias e não em outras. No geral, ficava no average. Achava que as garotas nada queriam com ele, e o achavam invisível – mais ou menos como todos os outros garotos de catorze anos e um dia – a idade que tinha na data. Sem ser exatamente feio, não era bonito. Sem ser fracote, não era forte. Em geral, não era.

Ninguém soube [e continua um segredo bem guardado] como aquele garoto descobriu a força repelente. As melhores especulações creem que partiu da lei da ação e reação de Newton – para a partir daí perceber que os seres físicos se atraem e se repelem. E que se ele pudesse criar um veículo que repelisse toda aproximação a qualquer matéria, este se moveria [de novo a lei de Newton].

A primeira experiência envolveu um carrinho de rolemã – e uma chapa de titânio vanadiado que teoricamente deveria fazê-lo ir para frente.

Foi para trás, e João Gonçalves Sousa Silva quebrou três ossos, em cinco pontos diferentes.

Não desistiu, e sete anos depois, no mesmo dia 14 de janeiro a Força de Reação do Exército Branco testou os primeiros veículos de transporte de tropas baseados na força repelente. O sucesso inspirou comentários não exatamente tranquilizadores para os países vizinhos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

13 de Janeiro de 1935 – Os Submarinos

Os dois submarinos nas pontas da linha da banalmente denominada Força de Ataque e Destruição deslizavam a cortar a correnteza que vinha do Mediterrâneo. 

Os comandantes [sem o saberem] levantaram os cronômetros ao mesmo tempo. Eram quatro horas e vinte e sete minutos e acabavam de romper o paralelo 38. [Também sem o saberem] os comandantes sorriram em simultâneo. Ao longe um monstro, o mesmo dos sonhos de criança e dos poemas de Camões. Era a Terra, a Europa – que os marinheiros conheciam apenas como Terra Bárbara, de acordo com a propaganda política do Conselho dos 18. Faltava pouco agora.

Laboratórios e estaleiros mais que secretos em algum lugar nas margens do Araguaia desenvolveram os submersíveis que ganharam o nome [pouco menos que ridículo] de Guará. Uma parte do seu sucesso veio pela paciente acumulação de inovações tecnológicas, cada uma a transformar o modelo anterior em uma máquina ultrapassada.

Os primeiros Guarás primavam pela autodefesa. Um dos pontos fracos e qualquer submarino era sua baixa velocidade em relação aos destróieres, que os caçavam a jogar bombas de profundidade em um jogo letal de caça às cegas.

O primeiro modelo de Guarás era 20% mais rápido que os submarinos da época. O modelo seguinte era 30%. Depois mais e mais, a transformar o caçador em caçado.

Depois da defesa, o ataque. Os torpedos brazylyenses eram mais rápidos, mais leves e mais assassinos.

Agora tudo isso seria testado. Os brasileiros faziam a primeira invasão submarina da História.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

12 de Janeiro de 2000 – A Pouco Misteriosa Descoberta de Ucronia

As 99 versões dos Discursos Ucrônicos se reduziam [na verdade] a três, duas das quais logo se descobriram apócrifas. Outro fator monotonizante é que os Discursos  na verdade não o eram, e sim uma narrativa [incompleta e imperfeita] de um outro país, que com Brazylya teria de comum apenas [e vagamente] o território, e pouco mais.

11 dias antes o [restituído] Conselho dos 22 levantara o Controle Prévio das Informações para o Povo [que a oposição chamava Censura] para noticiar que a República do Extremo Norte reconhecera [não sem alguma humilhação] que Brazylya constituía [de longe] o líder dos Países do Centro, e que a tripla epidemia [que então grassava nas Regiões Boreais] só seria debelada com os medicamentos brazylyenses.

O Conselho dos 22 teria deixado transparecer [pois o Conselho nunca afirma nada diretamente] que Brazylya se chamaria doravente Império de Brazylya.

E como que para deitar água na fervura, um monge jesuíta [sempre eles] descobriu na catacumba da Paróquia de Nossa Senhora do Paraíso em São Paulo uma história alternativa.

Tal narrativa falava que longe de ser a superpotência e país disparadamente tecnológico que que realmente era, Brazylya [com o nome alterado] era terra pobre, em crises intermitentes, com uma população imensa de nível educacional baixo, e que vivia de produtos baratos como ferro e soja.

Desnecessário dizer que ninguém gostou disso, exceto meia dúzia de místicos. Como único efeito prático, a ideia de se proclamar o Império foi abandonada.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

11 de Janeiro de 527 – O Povoador Oriental de Brazylya



Não se pode dizer que o barco [composto de lascas de choupo e junco crescida nas margens do Rio Amarelo] chegou exatamente no dia 11 na embocadura de outro Rio [que os indígenas (que então lá ainda não viviam) chamariam futuramente de Opará, e que certos relatos ucrônicos de um país fracassado chamariam São Francisco]. De qualquer forma, foi essa data que os 199 volumes da História Canônica estabeleceram como o dia em que Zheng Ho Chi, O Solitário, banhou seus pés na água morna da praia, quase a pisar uma arraia e suas queimaduras.

Não se marca pela adequabilidade o apelido Solitário. Afinal, o Almirante nascido na poeirenta Songyuan no Oeste da Manchúria não chegou só. Com ele vieram dezessete – os únicos que não se tinham afogado na travessia [com os juncos a encharcar de água do Atlântico] e a quem o escorbuto não roera. 

Desceram a tempo de ver a correnteza afundar o resto do Barco. Alguns choraram. Outros recitaram brocardos de Confúcio. 

Depois de meditarem no fato de que China nunca mais, lembraram os 9 homens e as 8 mulheres que precisavam construir abrigos e reproduzir-se, e o fizeram. 

A tradição [com óbvio e compreensível exagero] marcou o passamento do almirante chinês [já então tropical] para 83 anos depois, sempre a meditar na grandeza de sua obra. Três tabuinhas descobertas na Margem Ocidental afirmam [com menos triunfalismo] que o Povoador Oriental sempre pensaria que fora um pouco longe demais em sua viagem.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

10 de Janeiro de 1725 – O princípio da União dos Reinos



Bonjour – disse Monsieur Louis a seu cãozinho da raça Afghan – sempre falava com o cãozinho antes de se dirigir aos cortesãos. E havia muitos deles [e havia muito suor] naquela Belém do Pará com Andirobas de quarenta metros pendentes sobre o Palácio.

Palácio Real de um dos três reinos [na verdade dos quatro] – apenas três se consideravam civilizados – o Reino do Sul [colonizado pelos ingleses de Hakluyt – a mais estável de todas as colonizações]; o Reino do Centro [habitado pelos por aventureiros das cercanias do Brandemburgo] e aquele do Norte [uma invenção de piratas de Saint-Malo  - na verdade Louis era um deles]. [O quatro Reino era o do Ocidente, ou da Terra-do-Anoitecer – o Reino dos Índios]. 

Os franceses acreditavam em si, em Molière, na superioridade do dialeto da Bretanha [que eles guardavam como um escudo contra a poluição da prosódia parisiense] e em São Luís – um nome muito comum – na verdade, metade deles se chama Luís ou Luísa, ou mais que metade. 

Juravam [sempre que desembarcavam abaixo do Equador] que sempre comeriam croissants e beberiam autênticos vinhos de Province. Mais que isso, que seriam sempre franceses.

Louis [na verdade o Regente Luís II] um dia [a olhar o Rio Guamá, não o Sena] que nunca vira o rio Sena. Não era portanto francês. E que faria a paz com os outros dois reinos [na verdade três] com os quais dividia a Terra.

A Terra chamada Brazylia que acabava de nascer.