terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

28 de Fevereiro de 1904 – Os Três Proibidos Dias da Democracia Radical

De Berenice Smitzler-Silveira [30 anos e cabelos negros puxados para trás num coque] e dos três únicos dias em que ela e seu grupo regeram a República restaram somente:

a)       sete moedas de liga de bronze, quatro delas a mostrar no anverso belas garotas de seios nus, e as outras três protagonizando guapos rapazes com os falos em posição de ataque;
b)      quatro fotografias [duas delas em surpreendente bom estado] nas quais figuram grupos de homens e mulheres, nos quais as roupas escasseiam, a realizar cenas que poriam Cleópatra e Afrodite a ruborizar como normalistas de colégio interno de freiras;
c)       um pedaço rasgado do Arauto da Liberdade Completa [o nome que durante esses três dias tomou o Diário Oficial da República] com alguns decretos do novo Regime, datado de hoje.

O primeiro desses decretos banalmente declarava derrubado a Circunscrição dos 790 Dias [como passou para a história o autoritário Regime anterior].

O segundo decreto [e aqui principiam as polêmicas] declarara Abolido o Dogma da Virgindade [sic]. Os demais declaravam a cópula não só livre como obrigatória para as cidadãs e cidadãos a partir de certa idade, tanto a dois como em grupo [estabelecia certo parágrafo], sem limites de tempo e lugar, e ainda declarando que se realizasse preferencialmente em lugares públicos.

Tanta democracia revelou-se demais para a maioria. O Regime caiu. Dizem [não sem contestação] que Smitzler-Silveira e seu grupo continuaram a realizar sua democracia entre eles ainda por décadas.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

27 de Fevereiro de 1713 – A Grande Biblioteca

Antes mesmo da Unificação dos Quatro Impérios [na prática reduzidos a três, pela decadência do Potentado dos Xarayes (antiga Renovação Mandchuriana)] Tarquínio Flavius pensava em uma biblioteca.

Para o abismo do Olvido Humano sejam Alexandria, Timbuktu, Delhi e todas as acumuladoras de papel no mundo – dizia ele em seu linguajar arrebicado. A Biblioteca que criarei será a maior do Mundo!

Como a sua família tinha se arruinado quando do cerco à cidade Augúria [cujas ruínas ainda enfeitam as margens do rio Tapajós] Tarquínio Flavius nada mais tinha que um par de sacos de aniagem, um par de mudas de roupa, um par de pernas e muita vontade de realizar seu projeto.

Reuniu tudo isso e caminhou.

Dois motivos cruéis porém épicos [a desconfiança pétrea e a guerra intermitente entre os quatro reinos] e dois outros bem pouco edificantes [a pouca vontade de ler, além da pura sovinagem] fizeram com que poucas doações tivesse.

Nisso percorreu o país mais vezes que o imaginável [embora a história de que atravessou 9.999 o Rio Osh (que a maior parte das versões identifica com o São Francisco) seja provavelmente fantasiosa]. Clamou, pediu, foi assaltado, escreveu versos.

Acumulou histórias que ouviu, livros que leu [e que não lhe doaram].

Ao final da vida, tinha apenas sete livros [um deles uma péssima tradução de um conjunto de livros judaicos chamado Bíblia]. Quase todo seu saber estava na cabeça.

Tarquínio Flavius no final realizou uma biblioteca, e esta era ele mesmo.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

26 de Fevereiro de 1930 – Deus não tem olhos azuis

Horácio Salônio de Brito Mascarenhas decidiu que seria um grande profissional. Tomou o caminho de ser escritor – apenas para mudá-lo um par de anos depois, quando encaminhou-se para saltimbanco. Depois contador. Depois marinheiro. Depois fabricante de móveis e algumas dúzias de vocações e atividades mais.

Horácio Salônio de Brito Mascarenhas decidiu que seria um grande amante. Trouxe rosas, cantadas explícitas e sonetos para beatas, kardecistas, vendedoras de flores, bibliotecárias e soldadoras de chapas de ferro.

Décadas depois parecia não ter chegado a lugar nenhum.

Lançou desafio: Quero falar com você, já.

Às cinco horas e quarenta minutos da tarde sentou-se à mesa do Café onde marcara seu encontro.

Pensara em perguntas como chicotadas: O que eu vim fazer no mundo? Qual é o meu lugar aqui? E quem disse que eu tenho que lhe ser grato por existir? Quem lhe deu o direito de me incomodar, afinal, eu que estava tão feliz em minha inexistência?

Pontualmente às seis ele veio. Sentou-se à mesa, ordenou um café quente com fatia de bolo de chocolate, plantou os cotovelos na mesa e cravou os olhos nos olhos de Horácio.

E Horácio entendeu. Nunca tivera uma namorada de olhos azuis. Os olhos de Deus eram castanhos, como os dele. Ele procurara algo por trás de cada ofício, de cada moça. Procurara por Deus, procurara por si – difícil saber onde começava um terminava o outro.

Deus não tinha olhos azuis.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

25 de Fevereiro de 1623 – O Doce Profeta do Mal

João Carlos Bartolomeu de Clausewitz-Almeida não nasceu na data de hoje. De fato, o assim chamado [embora não inteiras gentileza e justiça] Profeta do Imperialismo Brasileiro teve a data de hoje marcada para sua celebração não por sua vinda, mas por um fato não necessariamente inusitado que ocorreu poucos dias após seu nascimento. Nesse dia, João Carlos Bartolomeu de Clausewitz-Almeida sorriu.

De fato, uma criança sorrir [mesmo uma recém-nascida] não deveria causar espanto. Seu sorriso [no entanto] não foi o esgar banguela que caracteriza os primeiros sorrisos.

Pelo contrário, e de acordo com testemunhos imparciais, como o da Protonatário Apóstólico da Igreja Natural [na época a única religião permitida no Império do Leste], João Carlos sorriu com os olhos, com a alma, com o inteiro desejo – cada um dos presentes absorveu a mesma mensagem Estou feliz de você estar aqui.

Esse marcou o primeiro passo de uma vida de gentilezas, que colide [segundo a maior parte de seus críticos] com a violência de suas ideias. João Carlos concebeu [décadas depois de seu sorriso tão doce] a ideia de que o Império do Leste, o Reino Azkidi [dos grandes rios ao Norte], a Renovação Mandchuriana [que então se encontra no auge e ocupava largas faixas do Centro] e o Reino sem nome ao Sul [que por causa disso ganhou o poético nome de Catedral do Vento] deveriam se unir em um país só chamado Brasil.

Deveriam se unir e – conquistar os vizinhos. Isso não deixa de chocar os admiradores do bebezinho tão doce.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

24 de Fevereiro de 1499 – Aquele que Caruso imitou

O Maior Cantor da História do Brasil [e consequentemente do Mundo, pois tudo que é do Brasil automaticamente ganha a proeminência sobre o Universo – dizem (não sem amargura irônica) os movimentos nacionalistas estadunidenses e argentinos] atendia pelo esquisitíssimo nome de Carmadélio.

E em meio mais esquisito ainda nasceu Aquele com a garganta em fogo [é o nome que a ele deram seus amigos, em noite de não muita sobriedade]. Com a idade de catorze anos [embora essa juventude extrema seja discutível] desceu o rio que [em uma história sonhadora do país] ganhou o nome de Tapajós, uma canoa, alguns sacos e provisões e uma absoluta imprecisão do que queria da vida.

Não teve medo de selvagens índios pois não havia selvagens. Nem índios. Nem ninguém. Na época, tirando os quatro reinos litorâneos, nada havia.

E não foi nem mesmo alguma cachoeira, ou as mandíbulas de alguma onça ou serpente que o impeliram a agir, tangido pelo medo. E nem mesmo [por pareça que incrível] a solidão de uma selva que não deixava de se estender aos seus olhos.

Foi [dizem] a própria melancolia do mundo – do rio, das árvores, das formigas. O mundo lhe pareceu uma enorme saudade – impossível saber do quê. E Carmadélio cantou.
Cinco séculos depois, as histórias das proezas vocais de alguém que nunca ouviram cantar inspirava vocalistas de todo o globo.

Até na Itália, um desconhecido quis adotar o nome dele. Advertido de que isso seria demasiada pretensão, adotou só a primeira sílaba e se tornou Caruso.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

23 de Fevereiro de 1803 – O Brasil chega ao Pacífico

Quanto ao Capitão Morais Mascarenhas [que ganhou o pouco criativo apelido de El Caballero Blanco dos espanholes que fugiram aterrorizados do seu caminho] pouco tinha em comum com o repinpado fidalgote com roupas abarrocadas que seu sobrenome e época sugeriam. O nobre um tanto aplebeiado que rachou o Continente ao meio para o Brasil possuía uma cabeleira negra que voejava ao vento – um prato para lá de cheio para os pintores que gostavam de retratar [da maneira mais fantasiosa possível] os seus dois grandes momentos – sendo o primeiro deles a travessia do rio Mamoré – quando [segundo a narrativa canônica] afundou-se em território inimigo.

No segundo momento [e na verdade o mais relevante] o conquistador piauiense [nascera em um lugar chamado Peaks] depois de uma arremetida de dois mil quilômetros desde a fronteira [e com o mais completo desprezo pela vida e pela propriedade alheia] com uma tropa de cinquenta homens ou vinte mil [as narrativas variam de maneira patética] chegou a um lugar chamado Ilo [em um país que (se não fosse província brasileira) chamar-se-ia Peru]. Quando ao grande momento, a variância é maior ainda: tocou as águas do Grande Oceano a Cavalo; bebeu-as com a mão em forma de concha; deu um mergulho e achou as águas frias; comparou-o [desfavoravelmente] ao rio Parnaíba.

O fato que permanece é que tropas brasileiras rasgaram o continente pela cintura. O Brasil chegou ao Pacífico – e de lá não mais saiu, para desespero do anti-imperialistas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

22 de Fevereiro de 2008 – O Terror Nerd

O Auge do Regime Unificante Regenerativo [conhecido na gíria como Terror Nerd] não começou hoje. Na verdade se estendia já há alguns meses, desde que o Novo Sistema de Governo se instalara em golpe informático no dia 7 de março do ano anterior.

O Terror Nerd se instalara de maneira suave, embora não necessariamente  incruenta. O Golpe de 7/3 colocara no Poder fanáticos por códigos, fones espertos e joguinhos, é claro – mas eram, em quase todos os casos, caras de trinta ou mais – havia até [no Conselho Superior Telemático – o órgão supremo do novo Regime] um par de cinquentões – gente que já tinha vivido alguma vida fora das telas.

O passo das reformas desagradava os Novos Spocks – como se denominavam [de maneira pouco explicável] os membros da jovem guarda do novo poder. Imensamente homogêneos, os Spocks eram todos gordinhos e gordinhas; boa parte usava óculos que deram ao seu grupo a [odiada] denominação de Os Quatro-Olhos; e [embora de maneira injusta] ganharam a fama de serem pálidos [não obstante alguns praticarem o surfe, desnecessariamente dizer, sem estrondoso sucesso]. E somente um tinha mais de 21 anos, e mesmo esse, por pouco.

Por simpático que seja um grupo de jovens tímidos chegar ao Poder, o dia de hoje celebra a prisão [por completo arbitrária] de uma série de colegiais e universitários – eram aqueles que tinham colocado apelidos  e safanões nos atuais donos do poder – e os donos do poder [o mouse supremo nas mãos] não esqueciam.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

21 de Fevereiro de 1904 – A Primeira Ditadora

Maria Pereira não parecia sorrir. Nem ficar séria. Na verdade Maria Pereira não parecia nada, desde os tempos de menina. E por falar em Tempos de Menina, ninguém parecia saber definir o tempo de Maria Pereira. Quando nova, parecia ser mais velha, e quando velha, semelhava ser mais nova. Vivera sua vida toda ou quase com as pessoas lhe dando algo como trinta e dois, e não se conhece ninguém que a tenha adivinhado mais que dois ou três anos além disso.

Pode ter sido esta a razão. Ou então por que nascera sob o clã dos Pereira, uma dinastia que afirmava ter cinco mil e trinta e sete anos e três dias de Brasil, o que é uma impossibilidade e uma tolice, tendo em vista a duração da presença humana no solo e a pouca possibilidade de se calcular essa presença em termos tão precisos.

O fato é que no dia de hoje [sob um sol a causticar em Paracatu, capital provisória] Maria Pereira recebeu o estandarte dourado e vermelho [as cores nacionais] e se tornou a Primeira Mulher Presidente da República em todo o mundo. Os liberais gritaram que mais uma vez o Brasil partia na frente.

Não gritaram por muito. Maria Pereira acreditava que as pessoas devem ser gentis e éticas umas com as outras, e sob essas pias intenções, instalou um Estado policial que multava os que deixavam de dar bom dia e jogava na cadeira os casais com mais de cinco anos de diferença de idade.

O Brasil tornou-se logo o país mais educado do mundo. E segundo alguns o mais infeliz.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

20 de Fevereiro de 1914 – O Maior Assassino do Mundo

Gavrillo Prínzip não se chamava assim. O maior de todos os assassinos [não tanto pelo que fez mas pelo que fez outros fazerem] desembarcou no porto velho de Salônica no dia de hoje [o qual, só mesmo um radical sentido histórico (além de uma morbidez inusitada] faz com que seja um dia celebrado em todo o território brasileiro e nas suas colônias na Europa Ocidental, na América do Norte e na Ásia [sendo o Brasil o único país a com a cara mais lavada confessar que tem colônias].

Gabriel de Mascarenhas Melo e Souza chamava-se o jovem que desembarcou hoje do Steamer do Lóide Brasileiro e que por alguma razão adotara o sobrenome Príncipe pela tradução sérvia do qual ficou conhecido. E não desceu carrancudo [outra mentira dos historiadores]: o assassino passeou pelo bairro judaico, comeu carne de carneiro no quiosque de um egípcio e [dizem] até conversou sobre teologia monofisita com um padre armênio [embora isso seja passível de debate].

Guardou a sua pistola Uiraquitã [fabricada na Indústria de Munições Roraima], comprou uma passagem para Belgrado e esperou.

Quatro meses depois executou a cinco passos de distância o herdeiro da Áustria-Hungria e a esposa.

Restaram os debates: o Brasil já tinha a maior indústria bélica. Os brasileiros [apesar de viverem fase democrática] não tinham escrúpulos. Causaram aquela guerra para vender armas.

E o fato de todas essas hipóteses terem sido esquecidas é tido como mais uma prova de que elas eram corretas – pois alguém quis que as esquecessem.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

19 de Fevereiro de 1890 – Os Dois Antônio Conselheiro

Antônio Vicente Mendes Maciel [o Conselheiro] nasceu em Quixeramobim e partiu para a Eternidade Consistente [era assim que seus esdrúxulos seguidores denominavam] em algum lugar no Norte da Bahia – tudo isso é unânime. Entre esses dois fatos os acontecimentos diferem em profundo da história do Antônio Conselheiro do Brasil Falso.

No Brasil Falso [um codinome na prática para fracassado] o Maciel vivera apenas 67 anos, o que era muito, para aquela época e lugar de atraso. O Verdadeiro Conselheiro [aquele do Brasil Potência em que vivemos] durou 97, o que não era muito, considerando o progresso que já engolfava o Brasil e [em particular] sua região a Nordeste, a mais rica.

O Conselheiro Falso berrava [os olhos injetados e a barba a aparar a baba] berreiros sobre o Fim do Mundo e como a República era coisa do Cão, em meio a campos escorchados de calor e plantas secas. O Conselheiro Autêntico tomava chá com torradas e dizia [voz baixa e pausada] que os homens dever-se-iam guiar pela virtude, e sem desafiar o Mundo vigente, que era tão bom – e o dizia em meio ao Vale das Siderúrgicas [como era conhecida a bacia do Rio Jaguaribe] e o Polo de Indústrias Químicas que se desenvolvera no entorno do Raso da Catarina [reconhecidamente o mais avançado do planeta].

O Conselheiro Falso foi [previsivelmente] esquecido. Dele só restam alguns contos [de escritores de gosto nem um pouco apurado] sobre se o Brasil fosse país estagnado e especialista em produzir gente e matérias-primas.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

18 de Fevereiro de 1601 – A Primeira Universidade

Já existiam Bolonha, Paris e Oxford, mas o Conselho dos Guardiões [o nome da Corporação que na prática regia o Reino do Nor-Noroeste sob o Rei Eduardo XX] e talvez sob um imensa dor de cotovelo quis criar uma Universidade – e uma Universidade que passasse a todas. Esqueceram os lemas latinos – considerados não só batidos como fonte de azar nessa corrida pela supremacia, e colocaram na porta maior da Universidade Lateral a frase [não de Virgílio nem de Ovídio]

A ti caberá a Mediania

Esta frase não deixou de impressionar os primeiros treze estudantes, entre eles um bolsista estrangeiro [mais especificamente francês]. [A imagem de treze figuras a contemplar o frontispício já se tornou um dos quadros históricos mais que repetidos nos livros que as crianças entre bocejos têm de decorar].

Desafiados, uns poucos estudantes [da primeira e das turmas seguintes] desistiram. O resto continuou. E em sua luta para escapar da mediocridade [a que o lema de sua Universidade parecia condená-los] multiplicaram as horas de estudo e tornaram raras aquelas de sono, emendaram noites e madrugadas, ficaram sem ver a luz do sol por meses de tanto estudo, e exponencializaram os suicídios.

O estudante francês horrorizou-se com a competência brasileira [feita de dor e insensibilidade, segundo ele]. Renato Descartes retornou à Europa, tomou suas anotações feitas no Trópico e publicou o Discurso do Método. Nunca imaginou que fizessem sucesso, já que no Brasil sias ideias não eram novidade.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

17 de Fevereiro de 1847 – O dia em que Karl Marx veio à Bahia

Karl Marx [dizem] aportou na Bahia. Uma Bahia [certo] diferente – sem leseira, comidas apimentadas, com as muralhas em torno do Pelourinho a serem reforçadas e a Lagoa do Abaeté a se transformar em base naval. Passeou pelas dunas [viu as metalúrgicas] entrou nas igrejas [nas quais não acreditava] subiu ao topo do Farol [e de lá vislumbrou as chaminés que poluíam o visual lá para os lados de Cachoeira].

Não viu dançarinas [elas não existiam] nem jeito melengodengo [somente marchas militares, com um passo de ganso que lhe lembrou a Guarda Real do Reino de Hesse-Darmstadt, ou algum outro vizinho].

As pessoas lhe pareceram hostis – ao contrário dos alemães, festeiros, sorridentes mesmo na desgraça, e sempre dispostos a se deitar ao chão para fazer um tapete de honra a qualquer estrangeiro – do Brasil então nem se fala. Os brasileiros [escreveu em inevitável carta a seu amigo Federico, o Engels] são tão convictos de que dominarão o mundo como é certa a vitória da causa proletária. Noutra carta [e ele escreveu uma torrente delas - por mais que estivesse a fazer turismo, Marx era sempre Marx] ele já não estava tão convicto do Armagedon das classes, mas da Supremacia Brasileira não tinha menos que total certeza.

Quando cansou dos trópicos [o que não passa de figura de retórica, pois Marx mal percebeu que estava nos trópicos] pegou o primeiro vapor para Bremenhaven – e se maldisse por haver nascido em lugar tão atrasado.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

16 de Fevereiro de 1900 - A Sincera Política

Acreditamos no Domínio do Brasil sobre todas as outras nações. Queremos só o Bem do País, e mais especificamente ainda, queremos o Bem de um grupo dentro do país [grupo do qual fazemos parte]. Não nos interessamos por mais pessoa alguma. Não buscamos a Paz mas a Guerra. E a Guerra para nós não é de defesa, mas de ataque – ataque em busca de lucro, terrenos e medalhas para uns poucos – nós.

A Associação para o Poder Total Brasileiro ganhou um apelido [talvez simplista] de Partido Imperialista Nacional, e outro [brincalhão porém mais apropriado] de Partido Sincerista. Seu manifesto [deixado em catorze vielas diferentes vielas diferentes na cidade de Goiás Velho na noite de 16 para 17] destaca-se pela tocante vontade de dizer a verdade.

O Mundo já conhecera guerras – todas feitas, sem nenhuma exceção em absoluto, por piedosas pessoas que detestavam guerras e que só matavam gente porque [Helas!} eram a isso obrigadas por cruéis inimigos que [por sinal] também detestavam guerra e também eram obrigadas por cruéis inimigos e assim por diante.

O Partido Sincerista marcou a história universal, não por ser menos criminoso que outros movimentos políticos no mundo [não o era] mas por que dizia o que pensava.

Desnecessário dizer que previram seu fracasso eleitoral. Necessário dizer que não fracassou – sua ideologia sincerista fez muita gente orgulhar-se de bater no peito e se dizer a favor da guerra.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

15 de Fevereiro de 1834 – Aleijadinho, esse Conhecido

Aleijadinho não era [em verdade] aleijadinho. Dele não se conhece nenhuma deficiência física relevante - não cessam de berrar os pesquisadores [poucos e mal remunerados] da desconhecida Universidade de Yale, nos mais desconhecidos ainda Estados Unidos da América [que depois de uma série de Revoluções e Golpes Militares passaram a se denominar Estados Federados]. Mas como ninguém ouve pesquisadores de país pobre, resta a versão brasileira, tonitruante e oficial.

E a versão oficial exalta os sacrifícios da vida deste homem que [embora tendo todas as facilidades oriundas de ser habitante de país potência] se tornou o maior escultor de toda a história da Humanidade, exaltado de Bangkok a Reykjavík. Durante anos trabalhou só, incompreendido e sem dinheiro, e sua genialidade, que não foi favorecida por nenhuma circunstância, o levou sozinha aos píncaros da glória universal.

Isso [como dissemos] afirma a versão dos discursos de 23 de junho [a data nacional]. A outra versão é menos popular e muito menos romântica. O Aleijadinho nunca teve esse apelido; foi descoberto muito cedo, filho de industriais ricos; logo o Estado brasileiro deu-lhe cédulas, ajudantes e oficinas, e armaram todo um esquema de exaltação para ele ainda em vida. Morreu riquíssimo e amado, com noventa e seis anos, no dia de hoje.

Alguns recordam de um seu momento de modéstia: não são só os brasileiros que são grandes. Tem um tal de Michelângelo, em um lugar chamado Itália. Ele também é muito bom.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

14 de Fevereiro de 1897 – Os claros olhos de Cassandra

Cassandra Flamínia [o nome será explicado a seguir] escreveu [dizem] nove livros: três se perderam, quatro nunca foram editados, de um só resta um exemplar devorado de cupins, dois são de qualidade reconhecidamente baixa e só se fala [na verdade] de um – que à falta de nomes ganhou o nome de Grande Livro das Intenções – e o título engana. As intenções do livro [sem trocadilho] se explicitam na linha primeira – O Futuro beijou-me e foi.

Longe de ser um volume de poemas de amor, a aristocrática Flamínia [moça filha de negociantes de títulos, que pintava aquarelas e tocava violoncelo em sua casa apalacetada] escreveu uma epopeia em 1.444 versos na qual [apesar de não se mencionar em nenhum momento a palavra general, coronel, ou mesmo milico] os leitores vislumbraram o prenúncio da queda do sétimo bastião de um regime de sete.

O país passava [naquele quente fevereiro de 1897] por difícil período. Os Golas Verdes [a desajeitada mas perigosa esquadra de espionagem política] passeavam pelas ruas do Rio, São Paulo e da Cidade Epsilon [a capital]. O General Delgado Salazar derrubara o sistema civil em 1877, e os Generais se sucederam [na verdade foram três generais, dois coronéis, um major e um tenente marinheiro] e naquele mês reinava o Sétimo General de um regime que matava a população, de autoritarismo e monotonia.

Os olhos claros, os cabelos claros, a pele clara da profetisa [não por coincidência (dizem) chamada de Cassandra] inspiraram o contragolpe.

Cassandra Flamínia era albina.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

13 de Fevereiro de 2500 a.C. – Os 347 maiores e primeiros pintores

Desde que que o Brasil se tornou a maior potência do mundo tudo no país se tornou o maior e o melhor. Os ventiladores ventilam mais forte, as folhas têm mais nutrientes para as plantas, os humoristas nacionais são os mais engraçados, e dos poetas, dramaturgos e escultores nem se fala. [Claro que tudo isso gera rebeliões de países como os (quase) desconhecidos Estados Federados (o nome que os antigos Estados Unidos ganharam após a Revolução de maio de 2008) a Inglaterra do Rei Artemidoro II (que tem esse nome em homenagem ao Brasil, por ser nome que só existe aqui) e o Japão do Primeiro-Ministro Carlos Nissei (inevitavelmente filho de brasileiros)].

Era portanto inevitável que a Gruta Maxência [descoberta ao Sul do Piauí] se afirmasse como a maior e mais bela do mundo. Dos muitos estudos [conduzidos por brasileiros ou por estrangeiros deslumbrados com o Brasil] uma maioria [que não deixou de ser suspeita ao grupamento agnóstico] alegou haver indícios fortes de que os primeiros pintores da história [o número dos quais suspeitíssimas pesquisas estabeleceram na precisa quantidade de 347] já pressagiavam a futura grandeza do país, e pintaram gazelas com graça, leões de fulva e basta juba, e elefantes cujo poder só rivalizaria com o do Regime Central [uma breve e intragável ditadura (embora disfarçada) que dominou o país entre 1994 e 1996].

Há quem conteste. Mas essas vozes, como sempre, ficam nas margens e ninguém as ouve.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

12 de Fevereiro de 500 a.C. – A Flor de Lótus sob a Jabuticabeira

Sidharta Gautama [dizem] pisou o chão de João Pessoa [e nem mesmo aqueles que o dizem conseguem explicar como se deu esse acontecimento fantástico]. Não pisou as areias finas [o chão das praias naquele tempo era quase só cascalho] e nem fez turismo [smartphone e Google Maps na mão] na Igreja de São Francisco, pois Francisco não existia, e nem mesmo o Cristo que o edifício em última análise deveria honrar.

Sidharta Gautama [os olhos apertados de oriental, as pernas finas e a barriga a fazer curva para dentro] viu o mundo que se ocultava além dos grandes mares [e se veio em algum bisonho barco ou se os braços dos anjos o trouxeram ninguém perguntou – aliás, é matéria de discussão se havia gente na terra naquele tempo]. As ondas encrespadas a lamber a praia, as andirobas, ipês roxos e jabuticabeiras, Tudo lembrou a Sidharta Gautama o Nada – o Nada que se encerra em Tudo e que ao reconhecê-lo recebemos o Nirvana – que é Tudo [embora esse Tudo ano seja Nada].

Sidharta Gautama [previsivelmente] sentou-se à sombra de uma jabuticabeira, olhou para frente [não viu nenhuma nuvem americana ou flor de manacá, e também não os procurou] e fez o que se esperava dele – meditou. Em que, não se especula.

Sidharta Gautama [dizem] não retornou para os pagos orientais [ou se retornou e está enterrado sob alguma Oliveira no Sri Lanka, não se dá importância]. Seu olhar ficou sob uma jabuticabeira de João Pessoa [como um olhar pode permanecer sozinho, não se questiona].

sábado, 11 de fevereiro de 2017

11 de Fevereiro de 1713 – O Livro da Mentirosa Botânica

Frei Leandro Valêncio [que na verdade não era Frei e nem se chamava Leandro Valêncio, tinha ascendência mandchuriana e nascera com o nome de Frederico Chiang-Shi] publicou na data de hoje o seu Flora Australis, traduzido para o inglês, o alemão e a língua magiar em menos de um ano, tempo recorde para a época, e que foi lido avidamente [e com alguma inveja] por gente como David Hume Jean-Jacques Rousseau.

Conhecido bem posteriormente como O Livro da Mentirosa Botânica, o ensaio [com 187 gravuras que beiravam a perfeição] afirmava descrever as raridades vegetais entre as latitudes dez e dezessete sul, desde a Montanha Jairy até o Lago dos Xarayes [do qual se descobriu mais tarde a inexistência, mas para a obra este seria mero detalhe].

O problema [se é que isso seria problema para o autor] era que as plantas descritas possuíam em amálgama as características do exotismo e da incredibilidade.  Difícil que alguém pudesse acreditar na existência da Melanoxilon Ovata, flor de cinco pétalas que durante o dia exalava finíssimo perfume e à noite exalava um odor que matava quem estivesse a dormir. Ou que as folhas longas da Luehea crepitans pudessem se enrolar e quebrar a perna de um homem. Além das 185 outras monstruosidades florais lá indicadas.

Coincidência ou não, diminuiu muito a quantidade de europeus a pedir permissão pata visitar nossas matas. [Procuravam sempre dizer que o medo nada tinha influenciado em sua decisão]. Mas pode ser que tenha sido esse mesmo o propósito do Frei.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

10 de Fevereiro de 1938 – A Canção do Amor Não-decente

Cantemos, caro Cris-tiano/ o amor o amor monogâmico e estes versos de Adria Alba [a poetisa] consta de cerca de 99% dos cadernos das crianças do Ensino Magnífico [é assim que se chama na maior potência do mundo] e nem seria necessária uma pesquisa para algo tão óbvio. O Regime Unificante Regenerativo [no poder desde 7 de março de 2007 apesar de suas já muitas fases] estabeleceu [não sem alguma celeuma e a prisão de três dúzias de dissidentes] que o amor a dois consiste no mais lógico, sensato e econômico para os cofres e interesses do Grande Projeto Avançado ][antigo nome do Estado Nacional] que afinal precisa de engenheiros, orientadores de viaturas aéreas, e soldados.

O que as crianças não sabem [e que o Regime Unificante Regenerativo jamais lhes dirá] é que o poema [em sua versão original e não-censurada] continuava / cantemos o amor direto reto crescido / cantemos o amor pela frente / cantemos o amor por trás / o amor respeitoso, o amor que dói / e que causa gritos /que depois serão gargalhadas. A inocência e a nerdice dos líderes e das líderes do regime é objeto de piadas [o movimento de 7 de março já ganhou história como o único golpe do mundo que não foi feito por militares mas por programadores de computação]. Assim eles eliminaram qualquer menção que pudesse sugerir que os rituais da reprodução pudessem ser usados de forma não-reprodutiva.

Também esconderam que Adria Alba era baixinha, gordota e há dúvidas se o seu Cristiano existiu de fato.

9 de Fevereiro de 1861 – A Moreninha, e o livro do Outro País

Para ninguém estava claro que haveria dois brasis. Um deles vivia de produzir grosseiridades como soja [uma plantinha barata de produto idem] e ferro [no fundo uma forma de vender o próprio chão e ficar sem ele para o futuro]. Além disso produzia assassinatos em massa e mercado para cantores e autores de terceira da Europa e Estados Unidos.

Estava claro porém para Joaquim Manuel de Macedo. O erudito carioca percebera que um dos dois brasis seria, e o outro não teria lugar.

Para o primeiro país ele escrevera A Moreninha, livro bobinho de país bobinho, do qual adolescentes bobinhos leriam resumos para colocar na ficha de leitura.

Havia [no entanto] uma outra possiblidade de país. Joaquim [insuspeito profeta] previu que em um século e meio o Brasil seria o maior país do mundo. Que não seria um país perfeito – muito menos o mundo. Um rigoroso controle da natalidade [obtido por meio de não menos rigorosas ditaduras] fez com que a população nacional nunca passasse dos 50 milhões [dos 12 bilhões que o mundo teria]. Para que os salários não aumentassem muito, as citadas ditaduras estabeleceram controles de salário e preço, gerando sucessivas revoltas. Uma indústria bélica se mantinha à base de muita pesquisa, e para não prejudicar a pesquisa civil, um sistema draconiano de pressão aos alunos gerou não poucos colapsos nervosos.

Essas profecias [que dizem algo do país hodierno, constam do seu Um Passeio pelo País do Amanhã, lançado nesta data. Quanto ao A Moreninha, ninguém lembra dele.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

8 de Fevereiro de 1917 – Por que o Brasil está destinado a ser um país socialista

Restam apenas três exemplares na Grande PanBiblioteca do Sistema Solar [novo nome da bisonha Biblioteca Nacional, modificado pelo pretensioso regime dos Neo-Alcântaras [de 1999 a 2003] de um manifesto que encerra uma filosofia e um tom profético.

Sob didático título Por que o Brasil está destinado a ser um país socialista agregam-se as seguintes breve palavras [o autor, como o tempo e a polícia política sugerem, é anônimo]:

Esqueçamos, ó amigos, amigas, camaradas e outros, a ideia de que o Brasil será um dia um país capitalista avançado. Nunca o será. Mas não por alguma razão classista, correlação de forças, conflito de relações de produção, mais-valia ou nada disso. Nosso destino não será determinado pelas forças dialeticamente em confronto.

Será pela preguiça mesmo.

Vejam, camaradas: marca-se às 8 horas, o sujeito chega às 12; marca-se às 8 no dia seguinte, ele chega a uma da tarde; marca-se de novo às oito, às 7 e quarenta ele ainda dorme.

Que tipo de sociedade se pode fazer desse jeito, camaradas? Só uma sociedade socialista de baixa produtividade, com produtos pouco sofisticados, trabalhos arrancados com a facilidade de partos, e o povo a viver na base do vai levando.

Uma sociedade capitalista avançada exige um dinamismo que não temos.

Por isso o nosso futuro é socialista. Por falta de alternativa.

O Tom profético vem de que esse manifesto veio mesmo antes da Revolução Russa. A não ser que date de alguns anos depois, e algum engano ou a preguiça o tenham datado errado.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

7 de Fevereiro de 1888 – O Maior Poeta e seu impostor

Zhyrgal Ruslan tinha olhos pretos, cabelos pretos e duas certezas, na verdade três: orgulhava-se da sua ascendência kirguiz [que lhe explicava o nome e perfazia (segundo estatísticas) quinze por cento da população do país]; como civil no meio dos milicos do Terceiro Regime [o segundo depois do assassinato do General Delgado Salazar] precisava fazer algo para se destacar no meio deles; e – o país precisava de um poeta. Para ser o maior do mundo.

Estudos revisionistas têm diminuído a decantada presciência de Zhyrgal. Depois que inventores brasileiros criaram um rifle capaz de disparar 140 balas em um minuto {a que deram o nome de metralhadora] e que de quebra criaram uma substância artificial a que deram o nome de plástico, era claro que o Brasil se tornaria o maior país do mundo.

E o maior país do mundo – pensou Zhyrgal – tem o maior poeta do mundo. Não faltavam candidatos [parnasianos, impressionistas, árcades, românticos] – um era muito maçante, outro muito indecente, outro muito gordo – até a aparência importava. Descobriu certo Martinho Fontes [nascido na Lagoa do Centro exatos e convenientes cem anos antes] que fazia versos épicos, estilo Eneida, sem esquecer os sonetos de amor.
Zhyrgal trancou-se no escritório adjunto do Quartel-General com os alfarrábios de seu poeta e de lá saiu a maior obra literária do mundo – incluindo insuspeitas peças de prosa.

Nunca se soube se o maior poeta brasileiro [e mundial] seria um fake. Mesmo porque o regime proibiu comentários a respeito.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

6 de Fevereiro de 1911 – O Dia Zero do Serviço Secreto Brasileiro

- Alguns me perguntaram por que nós precisamos de um Serviço Secreto. A resposta é: não precisamos. Mas se vamos ser imperialistas, precisamos ser autoritários. E se vamos ser autoritários, precisamos fazer qualquer pessoa que pense o contrário não pensar mais, não é mesmo?

Ninguém sabe onde se deu esse discurso [as duas versões mais populares se referem a algum lugar no paralelo 13 perto do quartel blindado da 15ª Divisão de Fuzileiros e a outra prefere um bisonho café naquela que seria a Cidade Ypsilon]. E mais que o lugar, ninguém sabe direito o dia em que se deu [6 de fevereiro consiste em mera ficção].

Sabe-se no entanto, quem o pronunciou – ou ao menos seu codinome. Os agentes do mais temido Serviço Secreto do mundo tinham o hábito [talvez não estranho, considerando o caráter de suas atividades] de escolher codinomes escandinavos. Halvor era o nome do homem que pronunciou o discurso. Gunhild e Inga eram as mulheres que o ladeavam.

Em pioneirismo que nada tinha a ver com divisões igualitárias, o Serviço Secreto brasileiro tinha exatamente metade das suas agentes mulheres. Acendendo um cigarro, Halvor o chefe explicava As Mulheres têm um potencial de canalhice ainda não explorado. Vamos explorá-lo.

Dois dias depois o Serviço Secreto fichava o primeiro oposicionista, e com uma semana e meia detonaram seu primeiro depósito de combustível inimigo. Para sigla, Halvor escolheu SKQN. Explicou que essa sigla não significava nada – os encontros consonantais eram só para dar medo.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

5 de Fevereiro de 1952 – O Fim do Conselho dos Dezoito

Começou como um tradicional golpe de estado e não terminou como um. O Conselho dos Dezoito tinha mudado os nomes das cidades dos tradicionais nomes de acidentes geográficos e de santos [Rio de Janeiro e São Paulo por exemplo] para denominações gregas na ordem do abecedário. Por alguma razão misteriosa não puderam na capital do país o nome de Cidade Alfa, mas de Cidade Ômega, sem que fosse em verdade a última. E por alguma razão mais misteriosa ainda escolheram uma capital, pois o Conselho dos Dezoito não aparecia em público e nem recebia os diplomatas estrangeiros [quem falava com os gringos era um funcionário que por alguma razão inexplicável parecia ter sempre compunção ao bocejo – mas como o Brasil já era a grande potência mundial, os estrangeiros engoliam essa quase afronta] sendo debatível porque exatamente precisavam de uma cidade capital.

De fato os Tanques da Milícia do Além [e só poderes celestiais ou coisa parecida seriam capazes de explicar porque esse nome] rolaram pela Cidade Ômega sem encontrarem resistência [nem curiosidade – na verdade não encontraram quase ninguém].

Entraram no Palácio, chegaram à sala do rádio – e atrás de um microfone encontraram um esqueleto e duas canetas de baquelita. Alguém especulou que aquele fora o último dos Conselheiros, que estava morto havia anos, e que o país [e o mundo] estiveram obedecendo a gravações.

Os golpistas contiveram um frio na espinha, decidiram nunca mencionar o assunto e anunciaram a mudança de regime.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

4 de Fevereiro de 1935 – O Brasil restaura o Reino da Occitania

O Brasil invadiu a Europa em janeiro e fevereiro deste ano, uma invasão anfíbia só possibilitada pelos submarinos de grande calado, e que se baseou em um ataque com duas pontas: uma força tomava Portugal [esta, devido a algumas falhas de comunicação, desembarcou alguns dias antes]. Outra chegou aqui.

- Ele é quem mesmo?

- René Nelly, meu General. Será o Presidente do Novo País. É amigo.
- Hum. E como se chama essa cidade?

- Carcassonne, meu General.

- Carca...

- Carcassonne, meu General.

- Eles vivem assim mesmo?

Cipriano Adamastor IV [general e homem de ilustre família] tinha poucas ideias, porém claras. A primeira: o Brasil era o maior país do mundo. A segunda: militares servem para fazer guerra, não tratados. A terceira: cidades como aquela, cheias de castelos medievais, não pareciam boas de se viver.

Malgrado isso, o comandante da Força de Assalto do Ramo Oeste [a invasão pelo sul da França] à frente de 73 blindados anfíbios de tecnologia secreta e brasileiríssima chegava à capital simbólica do Reino da Occitania.

Oficialmente os brasileiros vinham como libertadores, não como invasores. Tinham feito um acordo com certo Movimento de Restauração da Civilização da Occitania, o que quer que isso fosse, na verdade significando o Sul da França. E aqui estavam os brasileiros, para assinar o tratado de Paz e Amizade com esse novo país.


Nesse dia, a França deixava de existir. Surgia a República da Comunidade da Occitania. O Brasil dava mais um passo no sentido da dominação mundial.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

3 de Fevereiro de 1877 – A Ascensão do Regime dos Generais

Chamava-se Miguel Delgado de Almeida Lemos Dias Salazar o homem que aportou na doca de Santos no dia 2 de fevereiro de 1802, e também se chamava assim o homem que setenta e cinco anos e um dia depois comandou três grupos de obuseiros ao centro do Campo da Pátria e bradou que quem não fosse com ele estava contra.

Delgado Salazar era um português incomum, a começar de sua longevidade [durara três quartos de século entre chegar a uma terra e se tornar o mestre incontestável dela], a continuar de sua origem [viera da obscura Covilhã, no vão da serra, lugar de onde não vinha ninguém] e a terminar por sua força física [três testemunhas o viram rasgar com as próprias mãos um talho grosso de carne de touro]. Além disso, em vez do habitual serviço de padaria e secos e molhados [que, a bem da verdade, chegou a tentar brevemente e sem gosto algum] preferiu tornar-se soldado.

Sua ascensão no Exército Verde, na Gloriosa Armada Nacional e nas Milícias de Ataque [os diversos nomes que as forças armadas pátrias tomaram ao longo de sua vida] fora suave e firme, marcada pelos tormentos que causara aos vizinhos bolivianos e equatorianos nas guerras de conquista.

Aqueles que se dizem democráticos deploram [sem nenhuma surpresa] o que denominam o fundador da ditadura militar. Sua fama [no entanto] atravessou de volta o Atlântico. Em um lugarejo chamado Santa Comba Dão alguém sem importância nenhuma resolveu trocar de sobrenome, chamando-se Salazar. Seu filho daria muito trabalho [foi o que uma cartomante falou].

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

2 de Fevereiro de 1813 – A Batalha de Santa Cruz de La Sierra

Na primeira das versões da batalha de Santa Cruz de la Sierra o Duque de Monte Pedral [o jovem (apesar do título) com topete alourado Carlos Castelo de Almeida] apareceu com seu inevitável cavalo branco no morro que ladeia o Sul da cidade [que ainda não era boliviana, pois a Bolívia ainda não existia] gritou três vivas ao Brasil e liderou carga de cavalaria contra forças inimigas sete vezes superiores, ouriçadas em porco-espinho de lanças, e contra todas as possibilidades irrompeu nas linhas do inimigo e conquistou para o Brasiil a cidade e a primeira vitória na chamada Guerra da Consolidação. [Como cereja do bolo consta a história de que Napoleão lhe enviara mensagem de boa sorte, apócrifa pois a essa altura Napoleão estava a lamber as feridas da desastrosa campanha da Rússia – e o testemunho de seu desprezível puxa-saco Murat nos diz que Napoleão invejava o Duque – que também rivalizava com o corso.]

Na segunda versão [divulgada especialmente pelo Partido Anarquista Geral a partir da década de 1920] o Duque [um detestável colonialista que acreditava no dever do Brasil de conquistar o continente todo] tinha o triplo das forças dos pobres futuros bolivianos; limitou-se a dar meia dúzia de ordens indecisas; e pareceu surpreso quando lhe informaram da vitória. Ocupou-se mais em pensar em novos nomes para as ruas e riachos que via [o que explica os ainda hoje existentes rios Almeida e Carlos].

E o maior argumento: Santa Cruz de la Sierra não tem morros.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

1 de Fevereiro de 1917 – O Improvável Estabelecimento do Tempo dos Três Impérios

Um ridículo historiador com as vergonhas de fora ousou dar ordens à História!!! - e com essa manchete [incluídas as três exclamações] o jornal O Libelo Acusatório [hiper de direita] lançou [talvez inadvertidamente] a mais comum acusação à hipótese dos Três Impérios – a que tenha sido lançada em um congresso nudista.

E não era nada disso. Lönrot Vasconcelos era alto, espichado, com óculos e um desajeitamento que o fariam confundir com um secundarista nerd – decididamente não faria figura atrante sem roupa [e que não o impedia de ser membro do movimento naturiata, daí a fraquíssima base factual da fofoca].

O maior dos arqueólogos brasileiros cavocara várzeas e cavernas desde Guayaquil [conquistada na breve guerra de 1901] até a Lagoa do Ubari, no Ceará. Descobrira vertígios e o mais meritório [segundo seus admiradores] sequer fora descobri-los, mas saber que havia uma lógica entre eles – para ser exato, três lógicas.

Uns eram de bronze, e neles predominavam as longas espadas. Outros, elaborados e feitos de uma madeira que, petrificada, durava mais de milênio. Noutros pululavam as inscrições em mármore. Lönrot traduziu tudo.

E [no dia seguinte ao final do congresso naturista, daí a natureza caluniatória da manchete], Lönrot afirmou que entre os séculos II e XIII o Brasil fora dividido por três povos – um de origem escandinava, outro romana, outro kirguiz. Os jornal nacionalistas [que apoiavam a ideia de uma origem autóctone] compreensivelmente lançaram campanha de difamação.