domingo, 26 de fevereiro de 2017

26 de Fevereiro de 1930 – Deus não tem olhos azuis

Horácio Salônio de Brito Mascarenhas decidiu que seria um grande profissional. Tomou o caminho de ser escritor – apenas para mudá-lo um par de anos depois, quando encaminhou-se para saltimbanco. Depois contador. Depois marinheiro. Depois fabricante de móveis e algumas dúzias de vocações e atividades mais.

Horácio Salônio de Brito Mascarenhas decidiu que seria um grande amante. Trouxe rosas, cantadas explícitas e sonetos para beatas, kardecistas, vendedoras de flores, bibliotecárias e soldadoras de chapas de ferro.

Décadas depois parecia não ter chegado a lugar nenhum.

Lançou desafio: Quero falar com você, já.

Às cinco horas e quarenta minutos da tarde sentou-se à mesa do Café onde marcara seu encontro.

Pensara em perguntas como chicotadas: O que eu vim fazer no mundo? Qual é o meu lugar aqui? E quem disse que eu tenho que lhe ser grato por existir? Quem lhe deu o direito de me incomodar, afinal, eu que estava tão feliz em minha inexistência?

Pontualmente às seis ele veio. Sentou-se à mesa, ordenou um café quente com fatia de bolo de chocolate, plantou os cotovelos na mesa e cravou os olhos nos olhos de Horácio.

E Horácio entendeu. Nunca tivera uma namorada de olhos azuis. Os olhos de Deus eram castanhos, como os dele. Ele procurara algo por trás de cada ofício, de cada moça. Procurara por Deus, procurara por si – difícil saber onde começava um terminava o outro.

Deus não tinha olhos azuis.

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