quinta-feira, 16 de março de 2017

15 de Março de 1933 – O Improvável Profeta

Aeliano não tinha esse nome – na verdade não possuía nenhuma massa vocabular que o denominasse, até que uma garota resolveu chamá-lo [sem nenhuma razão aparente] por este epíteto de velhos cônsules.

Não usava barba, nem túnica velha a arrastar-se pelo pó [na verdade não usava túnica mas um paletó e gravata, puídos, é verdade, mas dignos]. Não gritava esganiçado nem tinha os olhos injetados. Malgrado todos esses contrapontos, chamaram-no Profeta.

No dia de hoje Aeliano bateu três vezes em uma das sete portas de madeira jacarandá à frente do Escritório Extraordinário, o nome banal em absoluto que significava na verdade o Palácio do Conselho dos Dezoito.

[Os guardas aterrados por sua força interna não tiveram coragem de assá-lo com os lança-chamas nem de picotá-lo com as metralhadoras – assim reza a lenda].

A porta abriu-se e a partir daí as versões se dividem. A mais popular [convenientemente difundida depois da queda do Conselho em 5 de fevereiro de 1952] afirma que o profeta sabia e denunciou a invasão brasileira da Europa [na verdade a segunda invasão, consubstanciada um par de anos depois. Saudosistas do regime do Conselho [compreensivelmente] argumentam que Aeliano aderiu aos propósitos de expansão imperial.

Uma terceira versão o colocou decepcionado com o mundo a vagar pelas estradas. Uma quarta [pretensamente humorística] sustenta que ele se decepcionou sim com os homens, e como represália transformou-se em uma galinha, mas aí também já é gozação demais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário