quarta-feira, 26 de abril de 2017

13 de abril de 1000 – A origem da família Bishkek

Ninguém sabe com exatidão minimamente verossímil a origem do clã do Bishkek [também conhecidos como Bishkek-Oblonski, Bishkek-Bolkhonski ou mesmo, em versão pouco verossímil, como Bishkek-Bezukhov]. Sabe-se apenas [o não é pouco, tendo em vista o recuado do tempo e o distanciado dos lugares] que o primeiro deles chegou para além das montanhas Jety-Ogul e estabeleceu-se [presumivelmente como pastor de búfalos] nas margens do lago Issuk [de fato, turistas afirmam que existe no centro de Balykchy [às margens do dito lago] uma estátua de tal patriarca – embora tal testemunho, como muitos, esteja longe de incontroverso.

Seu bis ou trisneto Bishkek Kyzyl [o que segundo algumas versões significaria Bishkek o Bobo] teria empreendido a viagem através dos oceanos, arrastando a família [pobre dela, dizem os chatos, que sempre existem].

A imagem dos dois patriarcas [vendida em massa em breguíssimas reproduções de gravuras do velho Magnifífico Império Azkidi, o qual seria (ao menos em parte) fruto de sua descendência] tem sido contestadas [pelos já ditos chatos] como pouco menos que fantasiosa, ou mais.

Os dois migrantes quirguizes para a terra da Brasil tinham estatura de quase anões, mascavam fumo, as cabeças eram chatas e suas barrigas eram descomunalmente avantajadas. Claro que esta versão também tem sido sujeita a contestação, desta vez pelos chatos dos chatos.

terça-feira, 25 de abril de 2017

12 de Abril de 1883 – Werther nos trópicos

O Conselho dos Generais [que dominava o país desde a quartelada de 1877] desta vez não inundou os jornais com as patriotadas de sempre. [De fato a oposição (reduzida a porões e encontros no meio do mato) dizia que as manchetes se dividiam entre Somos os Maiores e Somos Maiores Ainda.]

Normalmente as letras garrafais tomariam a parte de cima da primeira página do O Reluzente Futuro, o jornal semioficial do Regime, falando de certo tratado com o Chile [mas tal não aconteceu.

No momento em que o país [após sua dolorosa unificação de cerca de um século antes] atingia o auge de seu poder [ou ao menos de sua máxima extensão territorial] rapazes e moças vestiam-se de preto [ou de branco, o que era considerado ainda mais tétrico, arrumavam com cuidado velas e bilhetes, e procuravam a imortalidade em penhascos, rios ou altos de prédios que já começavam a crescer.

A onda de fins de vidas jovens gerou uma nota na imprensa pelo Conselho dos Generais. A qual ficou na História. Não pelo que disse [puro bom senso] mas pela surpresa. Afinal, em vez de acusar a fraqueza da juventude de hoje, que não tem a têmpera dos homens de meu tempo [como seria esperar, com cacofonia e tudo, de generais] os homens do poder confessaram que isso era sintoma de que Havia algo errado com a nossa civilização – algo que não sequer sabiam o que era.

Após este arroubo de sinceridade, os exemplares foram procurados e rasgados, e os remanescentes se vendem a peso de ouro nos leilões de raridades.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

11 de Abril de 1947 – O Tratado sobre a Irrelevância do Brasil

O Tratado sobre a Irrelevância do Brasil [publicado hoje em seis capitais] provocou uma incomum onda de debates.

Primeiro devido a seu subtítulo. A obra [coletiva e de autores anônimos] tinha a subinscrição O Elogio da Pureza.

Depois pelo seu [aparentemente terrível] timing. O livro apareceu apenas dois dias após o desfile da 19ª Divisão de Cavalaria Blindada Acreana [apelidada de A Borrachuda] na Avenida Lipscani de Bucareste – fato que [hoje se sabe] marcaria a mais longínqua conquista de capital pelo que os movimentos terroristas estadunidenses denominavam de Odioso Imperialismo Brasileiro. [Claro que, na época, especulava-se sobre uma possível chegada a Moscou, e assim a conquista da Romênia não passou de nota secundária].

Mas o que chamou a atenção para a obra [além de sua (quase) miraculosa permissão por parte da SKQN, a Polícia Política] consistiu no ataque que se fez à Mistura, tão louvada como a fonte do Poder Brasileiro pelo governo do Conselho dos Dezoito, então no Poder. [De fato, o grande impulsionador desta ideologia tinha sido o regime golpista do General Delgado Salazar, sete décadas antes]. Para a obra, a Mistura Cultural e todas as outras misturas geram povos e regimes fracos, e deve ser evitada.

Ninguém nunca soube quem foram os autores, apesar dos esforços na SKQN. O sigilo pode ter sido prudência dos escritores. Outra [inevitável] versão diz que foi o próprio Regime que lançou tal obra. Com qual propósito, só Deus sabe [se é que Ele sabe].

domingo, 23 de abril de 2017

10 de Abril de 1961 – A Instauração da Segunda República do Sono

A Segunda República do Sono [nome com claras conotações pejorativas] remete [obviamente] a uma experiência anterior. De fato a Primeira República não passou de nome facecioso [e patético, segundo críticos] que a historiografia outorgou ao período final (1698-1761) da Catedral do Vento, o Estado [ou mais propriamente, o frouxo conglomerado de Estados] que dominou [mais por falta de interesse de algum contendor] as planícies desde o sul do Paraná até o rio Uruguai, menos ou mais.  [Tal nome decorre de deboche dado pelos outros Três Impérios que vieram a constituir o Brasil, particularmente a Renovação Mandchuriana].

A Segunda República [no entanto] existiu em tempos [presumivelmente] mais movimentados – libertação, juventude, Beatles, Hippies, o Poder do Amor. Mas não no Império Brasileiro [era assim que os movimentos terroristas de resistência estadunidense insultavam a República que então se estendia da margem esquerda do Nilo até o Deserto de Sonora]. Os sociólogos de sempre dizem que a inação se devia a que o aparato burocrático [seus fichários empoeirados, seus computadores cheios de bugs e a polícia política, a SKQN] mantinha-se a mesma do tempo do famigerado regime do Conselho dos Dezoito.

Sempre a mania de culpar o outro – diz o Conciliábulo dos Estruturantes, um grupo de intelectuais contestatários de [quase] tudo. A origem da República do Sono [segundo eles] repousa na tendência muito humana à modorra, ao deixar-se-como-está. Tal explicação longe está de ser unânime.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

09 de Abril de 1980 – Os Normais chegaram ao Poder

Os Normais chegaram ao Poder na Cidade Épsilon [a então capital do País] em golpe que se denominaria antiquadamente de incruento – na verdade uma crise de tédio generalizada que de alguma forma se generalizou à política. O aparato burocrático [que se corporificava em torno da Academia de Administração e Ciências, também autoconhecida como Escola dos Melhores] dominava o país sub-repticiamente desde a decadência do Regime do Conselho dos Dezoito ao final dos anos quarenta. Dominava tanto que qualquer grupo que realizasse as bocejantes tarefas de assinar os decretos e fazer salamaleques a embaixadores estrangeiros não faria diferença.

Os Normais detém o galardão [talvez não de todo merecido] de serem igualitários, pois as posições de governo [talvez pela primeira vez na Humanidade] eram ocupadas não por indivíduos mas por casais.

O pós-modernismo logo baixou seu fogo laudatório ao ver os primeiros atos do primeiro casal [eles se sucediam tão rapidamente que nem vale a pena lhes consignar os nomes]: paletó [ou inexplicavelmente, gola rolê] para os homens, saia com estampas ou plissadas para as mulheres a partir dos 14 anos, além de outras medidas que geraram a crítica injusta de que o novo Poder tentava manter o país no Passado. [Injusta porque certos costumes, como a obrigação de visitas familiares todas as segundas-feiras, nem do passado faziam parte].

A Explicação do Casal Normal Presidencial para as críticas foi O que esperavam de gente tão normal??

quinta-feira, 20 de abril de 2017

08 de Abril de 1670 – Os Dois Caminhantes

Os 99 desertos da Beira da Reino da Renovação Mandchuriana não eram na verdade 99. [Um Atlas de las bolichezes de Países Vecinos (publicado previsivelmente em Comodoro Rivadávia em 1882 – já que Buenos Aires se encontrava ocupada pelo VI Exército Brasileiro) afirmou serem na verdade 176, enquanto uma edição alemã (Düsseldorf, 1907) estabelecia  serem apenas 17 – o que já era muito].

Seja como fosse, era   muito deserto. E a todos Carolina-Josefa e Marlos percorreram, a pé, a cavalo, de lhama, às vezes até a nado [entre os desertos havia não poucas paragens pouco desérticas. Além disso, o conceito de “deserto” na época era um tanto elástico].

Um casal sempre chama a atenção. Um casal naqueles fins de mundo sempre chama mais atenção. Um casal que percorre por anos lugares nos quais pouca gente meteu o pé gera cinismo, inveja e fofocas.

A primeira [e compreensivelmente a mais difundida delas] afirmava que se tratava de uma dupla de devassos, dados a todos os exageros carnais, a dois, a três, a muitos [o problema de onde viriam esses muitos, já que o casal da maior parte das vezes estava só, não parecia ser levado em consideração].

A segunda os transformava em demônios – dois espectros a vagar pela fronteira oeste a devorar criancinhas em poções mágicas [de onde viriam essas criancinhas, dá no mesmo problema da fofoca anterior].

A verdade [sempre menos interessante] parecia insuportavelmente monótona. [O que, evidentemente, não parou os rumores].

Carolina-Josefa e Marlos eram irmãos.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

07 de Abril de 1711 – O Rejeitador

No presente e no futuro estende-se [dizem, não sem alguma grandiloquência] a sombra do Reino Azkidi. De fato esse Potentado [o qual se denominava oficialmente O Magnífico Império Azkidi] não é dos menos exóticos [e em um país cuja história pulula de exotismos isso é mérito não pequeno]. Além de exótico, tratava-se de Império cujo poder dificilmente deve ser subestimado – estendia-se da boca do Amazonas ao aclive para os Andes, nos seus tempos de maior fastígio.

Ngenga-Osh sabia de tudo isso. E a tudo isso rejeitava. Na verdade a Magnificência do Império [e a percepção de que tal magnificência se fazia às custas do camponês e do pescador que produziam comida para os grandes e que morriam nas guerras para eles] não o enojava mas o deixava com uma sensação flutuante, leve, de estar-fora [não é à toa que certas seitas posteriores (amalucadas e mescladas de catolicismo) tentaram fazê-lo o santo padroeiro dos anestesistas].

O Sábio [na verdade ninguém (previsivelmente) o considerava assim, até que ganhou a compleição da idade] caminhava pelas florestas [onde se mesclavam produtos florestais para a mesa dos prósperos] e pelas forjas [onde se laminavam os arcabuzes e espadas para as guerras] e pelos portos [dos quais partiam os barcos de pesca e as fragatas de batalha].

Ngenga-Osh olhava os homens e [ao contrário de certo profeta das terras palestinas, muito para lá do mundo] e não se despertava compaixão, senão tédio.

terça-feira, 18 de abril de 2017

06 de Abril de 1956 – Os Estados Unidos têm jeito?

A publicação de Os Estados Unidos têm jeito? sob o nome de autor um tanto melancólico de John Davis levou a uma onda de orgulho e algum constrangimento pelo Brasil.

Poucos brasileiros sabiam dos Estados Unidos. Sabia-se que produzia uma música exótica e ululante chamada jazz, que as pessoas eram alegres e fagueiras em cidade de nomes estranhos como New York ou Chicago – e que essa descontração era atribuída ao fato de que eram modestos, contentavam-se com uma vida simples e não gostavam muito de trabalhar – o que era a um só tempo desprezado e tido como exemplo para o povo brasileiro, fanatizado por produzir e ganhar dinheiro. Ah, e os economistas sabiam que basicamente exportavam uma coisa só – o trigo [talvez também um pouco de carvão].

O baixinho e franzino Davis [o que era esperável em um grupo subalimentado] viera como migrante para o Brasil – limpara latrinas, varrera ruas e apesar de seus empregos pouco charmosos dizia que não queria voltar para os Estados Unidos de jeito nenhum – lá como engenheiro ganharia bem menos.

A Obra [na verdade uma anticatilinária a justificar porque os Estados Unidos nunca seriam um país poderoso como o Brasil] gerou reação dupla: de um lado os que se orgulhavam de terem nascido aqui, e de outro os que sentiram culpa da desgraça que sentiam que estavam impondo a outros povos. As doações a entidades de caridade aumentaram um pouco nos meses seguintes, talvez de forma não surpreendente.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

05 de Abril de 1938 – A Filosofia nos limites do Mundo

A Filosofia me ajuda a ser indiferente assim – ninguém sabe [na verdade se ninguém se interessa em saber] se Artemidoro era cabo, sargento, general, Mestre das Táticas de Futuro (este título estrambótico fora esperavelmente introduzido pelo Conselho dos Dezoito) ou qualquer outro rótulo vagamente militar. [De fato a SKQN [a polícia política do Regime] destruiu os arquivos s respeito e divulgou [com insistência quase irritante] tantas versões do fato que destruiu a credibilidade de qualquer uma delas.

Sabe-se apenas [se é que se pode saber de alguma coisa] que em uma das trincheiras da frente oriental [pois a paranoia do Regime mandara o Brasil fazer guerra em países quase surrealistas de tão distantes, como Moldávia e Valáquia] um homem chamado Artemidoro subiu no alto da trincheira, as balas do inimigo a zunir [e exatamente de qual inimigo se tratava é discussão tão extensa quanto inútil] e sussurrou:

- A Filosofia me faz indiferente assim.

E assim o disse mesmo, sem exclamações, mas com ponto final. [Alguns o colocam a fumar um cigarro, mas o movimento antitabagista tanto a combateu que acabou derrubando tal representação].

Essa frase tornou-se frontispício de toda faculdade de filosofia.

Alguns radicais dizem que se tratava na verdade de um anjo. Como uma admissão neste sentido levaria o frontispício para as faculdades de teologia, essa versão tem sido acolhida [compreensivelmente] com indiferença.

sábado, 15 de abril de 2017

04 de Abril de 1857 – Mensageira Matutina, Mulher

Carolina Maria Augusta [além desses três nomes] possuía [segundo o povo] 17 sobrenomes a deixar bem clara sua nobilíssima ascendência [um evidente exagero: segundo sua certidão eram apenas seis nomes-de-família, o que era mais que suficiente].

A jovem filha do dono do Jornal O Espectador se transformou [talvez sem sabê-lo] na primeira correspondente de guerra e testemunha da mobilização que o governo da época [conhecido como Sistema do Vazio, e, depois de 1859 (e não sem alguma injustiça) como Governança do Medo] fazia para invadir os países vizinhos [depois que o Brasil refluíra destes no começo da década anterior].

Disfarçou os lábios grossos e os olhos discretos de amêndoa sob quilos de pó caliça, entortou-se sob um pano de saco e uma corcunda parecida à de Notre-Dame, fez a mesma preparação destruidora de qualquer beleza com seu serviçal e passou a circular pelos trens e trilhas da fronteira oeste, enviando suas crônicas [na verdade mini reportagens em tom levíssimo para tapear a censura] para o jornal do pai.

A Mensageira Matutina [era assim que se assinava em sua coluna] enviava poemas em prosa sobre as flores do pantanal e [como quem não quer nada] falava de trens apinhados de uniformes, de tenentes cruéis e berrantes, de pilhas de lenha e munição. E assim o país soube que se aprontava para tomar as terras dos vizinhos.

E eu sonho com tempos que nunca vivi – escrevia a Mensageira, em crítica tão doce quanto contundente.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

03 de Abril de 1444 – O Almirante de Terra

Deng Chiang-Xin [um dia] descobriu que o mundo [aquele mundo de porcos e galinhas no quintal, que herdaria de seus pais] não era suficiente. Fazia séculos [ninguém sabia quantos] que os pioneiros Mandchus tomaram barcos [presumivelmente de boa madeira da Planície do Sul do Gobi] e atravessaram 7 Mares, afrontaram 77 Batalhas e devassaram 777 Rios [e a multiplicidade de números parecidos era repetida com fervor religioso no Centros de Comunhão em cada aldeola – e a ninguém ocorria questionar se isso passava de mera e simples (e tola) lenda].

A todos, mas não a Deng Chiang-Xin. Os antigos mandchurianos já não o eram [exceto em seus nomes com definitivas ressonâncias chinesas]. Os trópicos [o sol, os rios e a malária] bronzearam suas peles mas modificaram suas cabeças. Continuavam [na verdade com fervor crescente] a crer em antepassados heroicos e em obediência total às imutáveis tradições que vinham do grande sábio Confúcio [que as novas gerações já retratavam na beira de um rio amazônico a comer jabuticabas].

Cansado de tanta estabilidade, Deng Chiang-Xin pôs a mochila nas costas [já havia mochileiros naquele tempo] e apontou o nariz para o nascer do sol e seguiu o mesmo.

No dia de hoje [diz as lendas que ele detestava] um horizonte [com um tom visguento de verde] tomou todo o Mundo à sua frente. Descobriu que havia uma estranheza chamada Oceano [cujo nome repetiam mas ninguém sabia o que era]. Neste momento o Brasil do Interior e o Brasil da Costa se miraram.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

02 de Abril de 1954 – Jovem, orgulhe-se de sua brasileira herança!

...de sua brasileira herança!

Durante todo o dia de hoje, [e por nenhuma razão especial] as rádios e televisões do regime espalharam esta mensagem, desde as margens do Mar Negro até a Ilha de Páscoa [eram as fronteiras do Brasil na época, depois da Grande Extensão para O Nascer do Sol no século XIX [era assim que eufemisticamente se denominou o domínio sobre os vizinhos do continente] e da Bem-aventurada Ação de Solidariedade para com os Povos do Grande Mediterrâneo [que os movimentos de resistência (principalmente franceses e húngaros) denominavam de Desavergonhada Invasão].

...Maldita Herança!

Foi assim que Joaquim da Silveira Terêncio-Carlos [18 anos completados ontem, nu da cintura para cima, o vapor da lavadeira automática a enxugar os jeans, a paisagem da capital à sua vista] recebeu a mensagem do regime. Era um jovem politizado. Sabia [vivia muito de seu tempo em reuniões] que o novo governo [apelidado talvez não sem razão de O Covil dos Tontos] não sabia o que fazer com a herança de poder do Conselho dos Dezoito, o regime que encasquetara a usar o poder militar do país para conquistar o mundo. Sem saber o que fazer, resolveram deixar tudo como estava.

Terêncio-Carlos [como todos]não gostava do que via. Ao contrário de [quase] todos, decidiu fazer algo a respeito. Mirou um fuzil ao lado. De fabricação nacional, como tudo.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

01 de Abril de 1867 – O Mais Dramático dos Homens

João Ilianovitch de Raskholnikov-Cardoso desembarcou hoje [um dia particularmente desprovido de nuvens] no porto artificial de Palos [um pouco acima do Rio] construído por um dos breves governos democráticos de antes do golpe de 1877. Aos oficiais de imigração dera seus novos primeiro e último nome, sepultando os originais sob toneladas de esquecimento.

Pensou [não sem drama, mas Rashkolnikov era desesperadoramente dramático] neste momento  morro, neste  momento um outro começa a viver e coerentemente quis dar a sua bolsa de viagem [com tudo o que tinha] para algum menino esmoler famélico com cara de sofrimento que lhe pedisse moedas no cais. [De fato, fantasiava viver nova vida em um lupanar empanturrado de pus, tísica e meretrizes].

Para sua surpresa não encontrou nenhum menino esmoler famélico com cara de sofrimento que lhe pedisse moedas no cais. De fato não encontrou menino nenhum [e se tivesse pesquisado um pouco (não o fizera), saberia que o Estado não sabia como lidar com uma violenta queda na natalidade – por isso sorvia imigrantes, sem se importar se eram russos paranoicos].

Rashkolnikov quase cometera um duplo homicídio [de uma velha usurária e de sua irmã]. Arrependia-se - na última hora não empurrou o punhal – e não sabia se seu arrependimento era de ter pensado em matar pessoas ou de não ter matado mesmo.

Enquanto pensava se se tornava monge ortodoxo ou se se jogava nas águas geladas do Rio Neva, viu um cartaz oferecendo vida nova do outro lado do Atlântico.

terça-feira, 11 de abril de 2017

31 de Março de 1687 – O Gozador profeta

Fernando Bar-Mahdi [e ninguém soube a razão deste sobrenome exotificado, mas supõe-se que fosse outra gozação] vivia em uma longínqua comunidade nas azuladas Montanhas do Além, depois dos Sete Rios da Sabedoria, pegados ao Golfo da Iluminação [embora alguns suspeitassem que esses grandiloquentes nomes nada fossem além de auréolas bem pouco realistas para a lenda].

Coerentemente com a transcendental geografia que o cercava, tinha fama de santo. Pessoas [e, segundo dizem, também anjos] peregrinavam aos borbotões à sua pequena aldeia, em busca de respostas para as suas mais angustiantes e candentes duvidas existenciais que as perseguiam e atormentavam sem dar um minuto de trégua.

Um visitante [do qual há tantas versões de nome que é melhor concluir que ninguém se deu ao trabalho de guardar seu nome correto] procurou o sábio:

- Mestre, O Que É A Felicidade?

O Mestre virou-se, lento. Esbugalhou os olhos. Gritou:

- Olhe ali atrás de você!

Quando o homem se virou o Mestre deu-lhe uma bordoada.

Foram mais que inúmeras as interpretações aventadas para tal acontecimento. Alguns falaram da inutilidade das coisas materiais. Outras, na possibilidade de civilizações extraterrestres mais avançadas que a nossa.

Outros [porém] falaram que o Mestre já estava de paciência cheia de perguntas vagas e sem sentido como essa. Não é a explicação mais popular.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

30 de Março de 1851 – A Fundação dos Acadêmicos Superlativos

Sete pessoas [na verdade eram seis], mas consideraram que o número sete carregaria maiores conotações cabalísticas e assim arranjaram um sócio anônimo] fundaram hoje [em um romântico sodalício à sombra e frondosa mangueira [segundo o seu o seu próprio relato, que não goza de confiabilidade 100%] a Academia Brazylia de Ciências, Artes e Demais Desenvolvimentos Progressistas, a qual [compreensivelmente e devido a seu longo nome que prestava desafios à memória] tornou-se mais conhecida por Academia Superlativa.

E de fato o emérito conventículo fazia abundante uso dos mesmos. Belíssimo, Andrajosíssimo, Antiquíssimo e até mesmo Sesquipedal [que não é superlativo mas que conta (quase) como se fora] nunca se encontrava na lista de vocábulos que empanturravam seus sonetos e epopeias de dodecassílabos.

E esta de fato consiste na primeira [e não inteiramente injusta] crítica que se faz aos superlativos acadêmicos - o fato de que [apesar de se dizerem interessados em todos os ramos de atividade e incluírem um compasso e ramos de trigo em seu emblema] eles eram basicamente [para não dizer unicamente] poetas.

A este reparo os poetas e a poetisa [esta louvada como a representante da Força da Deusa Diana, o que quer que fosse isso] responderam com uma rajada de madrigais com exaltações à geometria, às vigas de aço e aos novos processos de fabricação de carvão sintético, embora [dizem detratores] fosse duvidoso se sabiam demonstrar o teorema de Pitágoras.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

29 de Março de 1763 – Sem Mistérios no Tempo

As Breves e Longas Considerações sobre a Inexistência do Tempo foram publicadas hoje. Publicadas se trata de força de expressão, pois tal obra não conheceu [e não conheceria por vários anos] a impressão gráfica – seus 7.999 exemplares [um número tão tolo quanto significativo] foram reproduzidos manualmente.

Tal imenso esforço requeria [como efetivamente requereu] a mão de obra conjunta de um grande grupo de pessoas – razão pela qual se trata da primeira obra filosófica dos tempos modernos [e quiçá de todos os tempos] oriunda de esforço coletivo – o que não deixou de ser objeto de gozação.

A primeira [e talvez não necessariamente indevida] crítica à obra decorre de seu próprio título – se o tempo não existe, como poderia ser breve, ou longo?

Os autores [no entanto] quiseram dizer que, mais que qualquer evento externo, o tempo se trata de uma sucessão de eventos internos, ou seja, a sucessão das ideias. Como ninguém pode parar de pensar [algo que (para os misteriosos autores) parece algo tão tolo quanto indecente] e como tais pensamentos possuem o estranho costume de não ocorrerem todos ao mesmo tempo, eles se estendem ao longo de uma linha – esta linha [por mera convenção] ganha o nome de tempo.

A crítica mais consistente [no entanto] talvez tenha sido a mais emocional – a de que este raciocínio não resolve os problemas da saudade, do arrependimento e do medo do futuro – este sim, os reais problemas do tempo. Quanto a isso, os autores quedaram compreensivelmente silentes.

domingo, 2 de abril de 2017

28 de Março de 1519 – Dos dois Lados da Igualdade

Ensaístas [com entusiasmo ultimamente contestado porém (talvez) perdoável] meteram-se a louvar o Magnífico Império Azkidi, o nome mais conhecido do antigamente denominado [com mais modéstia] Reino Azkidi.

Afirmam elas [e não o fazem inteiramente sem base] que tal Potentado [que dominou por quatro séculos os estados que compõem hoje o Norte do país] consistia em um paraíso de igualdade entre homens e mulheres, a começar da ida à escola e a terminar na propriedade dos bens. As duas únicas mulheres membros da Academia de Ciências e Letras do Brasil Verdadeiro conseguiram empurrar [em um 28 de março] uma moção de louvor a este longínquo reino, e só a mera coincidência entre o ano em que o fizeram [1919] explica porque escolheram 1519 como o ano da homenagem.

Que não era indevida, porém [talvez] eivada de exagero. Os Azkidi vieram da mesclagem [decidida pelos maiorais] entre os povos Bishkek [que eram quirguizes longinquamente da Ásia Central] e Azginya [parentes distantes dos Tutsi de Ruanda]. Uma mera necessidade de juntar [em casamentos forçados] os membros das duas etnias forçou a igualdade entre os cônjuges.

A necessidade de equilíbrio levou a que, quando um era condenado por crime, o outro também fosse enforcado, quer tivesse participado ou não. Quando um morria, o outro era enterrado vivo [pois poderia casar-se de novo rompendo a delicada união]. Este aspecto pouco agradável da igualdade tem sido [talvez compreensivelmente] esquecido.

sábado, 1 de abril de 2017

27 de Março de 1601 – Uma Investigação sobre o Buraco Negro do Ser

João da Silveira Teles Bartolomeu Mattoso de Tomás-Locke escreveu duas obras. [Seu tédio como professor de Grego Clássico e Tupi para menininhos e menininhas filhos da elite sacerdotal da Catedral do Vento (o fantasioso e péssimo nome atribuído à parte Sul do país) talvez tivesse algo a ver com isso].

A primeira parte [composta de três opúsculos com os títulos de Também nós não mudamos (1589), Tudo permanece (1598) e Nada Muda (1599)] lida [não surpreendentemente] com a impossibilidade de qualquer transformação – a qual, segundo o autor, é sobejamente provada pelo fato de que as montanhas seguem a ser as mesmas, os bêbados não conseguem largar a bebida e os tímidos têm as mesmas dificuldade a vida toda.

Contestado [como seria de se esperar] com a argumentação de que sua obra não passava de barafunda a misturar psicologia e estudo dos minerais [para não mencionar a metafísica], respondeu ele com o conceito de Vlamr, uma palavra retirada do repertório sagrado dos sacerdotes da tribo Sachamama, e que significava algo como o permanecer único e multifacetado e transformante, uma longa frase que [para o rigoroso filósofo sulista] demonstrava a pobreza dos idiomas indo-europeus ante a linguagem central [era assim que ele denominava a língua dos povos mais antigos do continente].

Isso até que, hoje, Tomás-Locke publicou As Duas Luzes na Sala Escura – sobre a mudança geral de tudo. Seus antigos adeptos [furiosos] o sequestraram, mas o sábio disse que até isso fazia parte das mudanças.