sábado, 15 de abril de 2017

04 de Abril de 1857 – Mensageira Matutina, Mulher

Carolina Maria Augusta [além desses três nomes] possuía [segundo o povo] 17 sobrenomes a deixar bem clara sua nobilíssima ascendência [um evidente exagero: segundo sua certidão eram apenas seis nomes-de-família, o que era mais que suficiente].

A jovem filha do dono do Jornal O Espectador se transformou [talvez sem sabê-lo] na primeira correspondente de guerra e testemunha da mobilização que o governo da época [conhecido como Sistema do Vazio, e, depois de 1859 (e não sem alguma injustiça) como Governança do Medo] fazia para invadir os países vizinhos [depois que o Brasil refluíra destes no começo da década anterior].

Disfarçou os lábios grossos e os olhos discretos de amêndoa sob quilos de pó caliça, entortou-se sob um pano de saco e uma corcunda parecida à de Notre-Dame, fez a mesma preparação destruidora de qualquer beleza com seu serviçal e passou a circular pelos trens e trilhas da fronteira oeste, enviando suas crônicas [na verdade mini reportagens em tom levíssimo para tapear a censura] para o jornal do pai.

A Mensageira Matutina [era assim que se assinava em sua coluna] enviava poemas em prosa sobre as flores do pantanal e [como quem não quer nada] falava de trens apinhados de uniformes, de tenentes cruéis e berrantes, de pilhas de lenha e munição. E assim o país soube que se aprontava para tomar as terras dos vizinhos.

E eu sonho com tempos que nunca vivi – escrevia a Mensageira, em crítica tão doce quanto contundente.

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