terça-feira, 2 de maio de 2017

14 de Abril de 2277 – O Último Brasileiro

Escrevo à beira de uma janela arrebentada no alto de um dos sete últimos prédios ainda em pé no centro do que se chamava antigamente cidade de São Paulo. Tenho catorze anos e já sou e pareço um velho. As mutações histológicas oriundas de da poluição pela radioatividade e amônia podem ter a ver com isso. Escrevo à mão – uma arte antiga que nunca aprendi. Não há mais ninguém na cidade. Nem em um raio de cinco mil quilômetros.

Escrevo e ninguém me entende – e isso não é figura romântica de retórica. Ninguém entende mais a língua portuguesa. É também muito pouco provável que algum humano volte a habitar essas terras. Somente nas faixas mais frias ao Norte ainda se encontram pessoas, mas eu, para dar testemunho do que se passou e na falta de algum transporte confiável, ficarei aqui.

Foi rápido. As árvores viraram arbustos, os arbustos nada. As guerras civis, a incapacidade de entendimento, a teima em velhos problemas no lugar de novas soluções – e chegamos aqui. Sou o último.

Não tenha pena, você que nunca lerá. Sou mau, mesquinho. Nunca cuidei do que é meu. Essa não é hora de parecer bom, ou vítima. Nunca pensei por minha própria cabeça. Fui servil, imitador, incoerente. Sempre preferi matar galinhas a pacientemente esperar os ovos. E aqui estou.

Não sou o retrato de nada. Na verdade não sou nada. Os humanos vieram para esse mundo. Os humanos não deram certo nesse pedaço de mundo. É simples. Não deixa de dar uma certa vontade de inútil chorar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário