quinta-feira, 29 de junho de 2017

01 de Maio de 1541 - O Plagiador

João Carlos Aybek-Taalay [conhecido geralmente por este último nome] herdaria seu Reino [um pequeno Reino entre as embocaduras do Rio que que depois seria erroneamente conhecido como das Amazonas]. Seu pai morrera [sozinho em um jardim] e sua mãe se casara com o antigo cunhado.

Tudo seguia mais ou menos mal até que o pai de Aybek [o Rei de mesmo nome] apareceu em fantasma ao filho, dizendo para que matasse o tio para vigar o assassinato do pai].

Bartolomeu-Clécio [e nunca ninguém se preocupou em registar seu primeiro nome] escreveu essas e não poucas histórias – boa parte delas sobre reis e príncipes [coisa que nunca fora] e sem deixar de transparecer certo tom bajulatório. Uma delas [criticada com alguma veemência por inverossímil] colocava duas famílias [uma da amiga nobreza quirguiz e outra da casta de guerreiros Azginya] em rixa imemorial, e [entrando então a alegada inverossimilhança] um jovem e uma jovem de cada uma das famílias se apaixona um pelo outro.

Essas histórias [mais exatamente essas peças de teatro], cuja recepção [como já vimos] não foi isenta de controvérsias, atraíram plagiadores. A maior parte [esperavelmente] veio do próprio território que seria depois conhecido como brasileiro.

Certo estrangeiro vindo das periferias subdesenvolvidas do mundo estudou um tempo nas cercanias de Belém do Pará, algumas décadas depois. Teria sido ele mais um dos plagiadores. Chamava-se Shokesteare. Shonesteare ou algum nome anglo-saxão parecido, nunca se soube ao certo.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

30 de Abril de 1961 – O Último Crime

Sabe-se que o Brasil é o país mais pacífico do mundo. Sabe-se [e brinca-se] que se trata do único lugar em que se podem esquecer barras de ouro em um banco de praça e no dia seguinte as barras estarão lá [e nesse ínterim não foram trocadas por barras de ouro dos tolos – assim continua a brincadeira – a qual nunca passou por comprovação prática].

Esta boa fama começou [e isso não se sabe] com um crime. Na verdade o último crime registrado na cidade de Cuiabá – que foi a primeira grande cidade a despedir-se desta estúpida prática humana.

Não foi [forçoso é reconhecê-lo] crime. Mas uma despedida da vida, de fato uma desistência dela. Protagonizou-a certo Casimiro Dias Gonçalves Abreu, e seu nome [casualmente a junção de dois poetas] parece tê-lo predisposto a uma vida romântica. Cometera dois livros [um de sonetos alexandrinos e outros de trovas] recebidos com certa indiferença pela crítica cuiabana. [De fato considerou esse fato alvissareiro, pois a leitura de biografias de literatos o convencera de que o fracasso em vida sinaliza o sucesso após ela]. Vestia-se de terno branco [já fora de moda] com flor vermelha na lapela. Faltava [no entanto] morrer por amor.

Procurou Elvira, Maria Clara e Helena Teresa, e todas defeitos tinham: muito gordas, muito magras, muito práticas, muito felizes, muito alguma coisa. Nenhuma era candidata a musa perfeita de um bardo desditoso.

Dizem que foi exatamente a falta de musa que o fez jogar-se nas águas claras do rio Paraguai às 6:22 da manhã.

terça-feira, 27 de junho de 2017

29 de Abril de 1949 – A Odisseia do País dos Fracos

No Auge da Fraqueza se encontra a Minha Força – e esse ditado [muitas vezes citado ao contrário – no auge da força se encontra minha fraqueza] apareceu [de forma legendariamente misteriosa] no frontispício da Universidade de Araguaína [hoje reconhecida como a melhor do mundo em astrofísica molecular, nanofribrologia e 37 outras cositas mais] mas que na época era apenas uma das sete melhores.

Tal inscrição [cujo autor convenientemente nunca se descobriu] contrastava com o estado em que o país vivia – um estado que se manifestava mais no exterior que de lado de cá do Atlântico. De fato a Coalizão Nórdico-Latina instalara-se um par de anos antes em dois prédios entre o Portal de Brandemburgo e o Hotel Adlon. De lá este pretenso governo europeu [o pretenso vem dos detratores] governava um pedaço do mundo que se estendia de Cascais [com própria Lisboa sendo reduzida a um esdrúxulo Grão-Ducado Tejano] à borda entre a Moldávia e a Ucrânia.

Tal Governo [diziam, e ao o dizerem deram base aos movimentos terroristas que pulularam alguns anos depois] não passava de títere de um poder muito maior – o poder brasileiro, que invadira a Europa

Em contraste com tal soberba [não faltaram os profetas que o disseram] veio tal inscrição. Seu sucesso talvez sinalize para que seja uma mensagem universal, e não apenas para o Brasil Poderoso daqueles tempos.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

28 de Abril de 1899 – As múltiplas explicações do poema

A Elegia da Mulher que começa a amadurecer tem sete versões, nenhuma delas [dizem os detratores e cumpre reconhecê-lo] muito confiável. De fato, neste pequeno poema [que faz presença nos cadernos de adolescentes e nas antologias de escola] nada é muito seguro. A começar de seu título, que além da versão acima tem também a de O Elogio da Mulher Quase Madura, além de seis outros, entre os quais se destaca [desgraçadamente por seu mau gosto] o de Adeus às Tolas Ilusões da Mocidade.

Como todos os poemas populares e de autoria mais ou menos incerta, pululam as histórias sobre sua origem como cogumelos após a chuva [com o perdão da péssima metáfora]. Inevitavelmente a lista delas inclui a de que o autor seria um poderoso Rei, apaixonado pela esposa de um de seus principais cavaleiros, e que, dividido entre o amor e a honra, [e consumido pelo primeiro], decidiu-se a expressar seus sentimentos em palavras. Tal versão, popular entre os trovadores do povo, revelou-se sem credibilidade, pois Reis não pedem, tomam.

Outra delas se afirma ser o poema a dedicação de amor de um sacerdote a uma belíssima freira recém-chegada, que o fazia lutar entre o entre as delícias do Império e as deste Vale, de lágrimas ou de tragos de caipirinha, ninguém sabe ao certo.

Há uma última: a autora seria uma solteiríssima, elogiando a si mesma, sendo portanto o poema inválido pois auto elogioso. Nestes tempos cínicos prosperou esta última explicação.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

27 de Abril de 1900 – O Dia em que reconheci que sou falível

Dara Osh-Tashkent [seu nome constituía longínqua ressonância de antepassados quirguizes] aos 22 anos fazia o que devia [e sempre fizera o que devera]: boa filha, boa vizinha, boa estudante, boa colega. Sua vida mudou na data de hoje  por causa de um copo de água.

Não metafórico – real. A jovem Dara arrumou a casa [como sempre] e saiu para dar suas aulas. Filha perfeita, arrumava tudo perfeito – e era louvada por isso.

Retornou e viu um copo – cheio d´água, bem no centro da mesa.

Ninguém tocara lá. Era fora a última a sair, a primeira a chegar. Deixara tudo como deveria, e como sempre. Não deveria ter um copo d´água lá. Mas havia.

Não era obra de Deus. Era ela mesma. Ela não enxergara o óbvio. Ela era falível.

A partir daí Dara Osh-Tashkent [que por questão de simplicidade passou a ser conhecida como Dara Osh] passou a cruzar o país [e as possessões o Brasil Grande conquistava] a cometer erros: dava dinheiro a famintos que iam [na verdade] bebê-lo de álcool, dava pão a quem na verdade o vendia, construía casas que servia apenas para serem depenadas por quem não queira morar lá.

Não se arrependia de que fazia – embora reconhecesse que eram erros. Com o tempo nem se importava se eram erros ou acertos – eram, e era o que importava. Não pensava em Deus – nem na bondade – fazia e errava – não necessariamente nessa ordem. Não era ateia – simplesmente não se importava.

O Brasil [país único] tornou-se o único país a ter uma santa falível – e que não tinha a menor vergonha disso.

terça-feira, 20 de junho de 2017

26 de Abril de 1545 – Meditação de um profeta confessadamente falso

Durante os primeiros 555 anos procurei por meu Destino; durante os próximos, o meu Destino é quem irá me procurar! – e esse ditado [repetido sem ser meditado, como acontece com os ditados] possui uma segunda [e mais piedosa] versão, na qual o Destino é substituído por Deus. De qualquer forma, quando Catulo Oliveira-Andijan pronunciou tal frase [em algum lugar perto das ruínas de Penedo, no dia de hoje em um conveniente cair de tarde tempestuoso] todos [e mais ainda a Posteridade] prestaram atenção apenas no que é secundário, ou seja, no possível conteúdo moral do adágio, e não no que realmente interessava: o fato de afirmar ter vivido mais de cinco séculos.

O sábio Andijan [como ficou vulgarmente conhecido] tem despertado algum interesse da comunidade científica da Cidade Alpha [estrangeiros afirmam que isso se deve a que, o Brasil tendo resolvido virtualmente todos os seus problemas, pode se dar ao luxo de pesquisar bobajadas]. Do fato ele apresenta interesse inclusive histórico: o fato de ter feito suas pregações terem sido feitas no rio [que os ímpios chamariam de São Francisco, na frouxa fronteira entre o Império do Leste (onde reinavam os descendentes de europeus) e o Grande Reino Azkidi (da mistura entre os Azginya e os Quirguizes, dos quais o nome do profeta é claramente derivado)] confere ao sábio um inevitável charme conspiratório.

No entanto, a explicação menos implausível é que o sábio completara não 55, mas 55 anos, e fazia planos para o futuro, como é de praxe. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

25 de Abril de 2487 – Notícias sobre uma escavação

Os membros da equipe falavam [além de se comunicarem mentalmente] por uma mescla do dialeto samoiedo-angolano com uma outra língua [que, descobriu-se, tratava-se de uma forma (embora já bastante modificada) da antiga língua que se falava na região]. As cintas anti-gravitacionais e os veículos da mesma propulsão conduziram-nos de Alphaville [o nome da cidade principal emulava o de uma velha película feita para diversão dos bárbaros contemporâneos do terrível século XX] para a Dimensão Real [era este o nome da metade sudoeste do hemisfério, depois do grande tombo populacional ocorrido no começo do século XXIII].

Desceram no meio da floresta [nenhum humano ou humana em um raio de cinco mil quilômetros] e somente muito treino [feito nas incubadoras do SuperEstado, desde que as famílias foram oficialmente extintas no ano 2361] os fazia imaginar que um dia outros humanos tivessem ali vivido.

Máquinas escavadoras [ajudadas por sondas ultragalácticas] revelaram que um dia humanos habitaram ali. A exatos trinta e nove metros abaixo de um rio encontraram um globo metálico trespassado por uma haste, que encimava uma formação semelhante a um prédio, sob o qual quedava a inscrição Brasil. Por pareça que incrível, alguém vivera ali.

Os membros da equipe entreolharam-se. Quem entendia aquilo?

quarta-feira, 14 de junho de 2017

24 de Abril de 1952 – A Transferência do Comitê Nobel para Caruaru

Uns dizem que foi por ideologia. Outro, que os suecos e suecas quiseram apenas um pretexto para migrar para o Brasil, então já reconhecido como o maior país entre todos. O fato é que a cerimônia começou às seis horas deste dia, em Estocolmo, ao lado do Palácio Real. [O Rei protocolarmente triste, porém (dizem) feliz de que pelo menos as despesas desse dispendioso Comitê passariam às mãos de um país mais próspero].

As lembranças de Alfred Nobel [incluindo bananinhas de dinamite de brinquedo, para lembrar o perigoso brinquedão que o fizera rico] atulharam-se na traseira do avião da Linhas Universais e Brasileiras [o bem pouco modesto nome dos transportes aéreos brasileiros].

O Prêmio Nobel se mudava para o Brasil. Os saudosistas [eles sempre existem] manifestaram-se contrários – como, como perder assim essa tradição escandinava e nacional? Afinal, era preciso defender o seu lar e a sua cultura. Outros argumentavam com o [também onipresente] realismo: forçoso era reconhecer que a Suécia estava tomada pela corrupção; e que as ruas estavam coalhadas de bandidos; e que o país nunca conseguira um desenvolvimento real, sustentado; e que as cidades nada mais eram que ninhos de engarrafamentos – sem contar com a poluição que ameaçava cada vez mais de perto.

A pujante Caruaru foi escolhida como sede do Prêmio. Pensaram [com senso renovador talvez excessivo] em mudar o nome. Alguém cogitou em “Prêmio Arapiraca”. Com esta é cidade rival de Caruaru, a ideia foi [convenientemente] esquecida.

terça-feira, 13 de junho de 2017

23 de Abril de 2017 – Não me senti diferente (e deveria)

Passei ao lado do Centro de Pesquisa da Vida – o Gramado, a Mata, a Biblioteca . O pessoal a praticar alguma técnica meditativa. Ia para meu expediente de quatro horas de trabalho – apenas, quatro, como todos, desde que o governo Brasileiro em cinco de dezembro de 1999 decidiu que já se produzira coisa demais, e, se algo ainda faltava, era tempo para ser feliz, e expediu o Decreto de Limitação Radical da Produção.

Acenaram-me, acenei de volta. Muitos velhinhos e velhinhas de cem anos – se é que se pode denominar de velhinhos essas criaturas que andam, escrevem, pintam, fazem teatro, até namoram – tudo exceto trabalhar, que os mais novos fazem mais que suficiente para todos.

Perto deles o Museu do Automóvel e Outras Tranqueiras – museu mesmo. Lembro de ter visto quando menino um automóvel nas ruas – ou não lembro? – faz tempo tanto. Os automóveis se extinguiram – extinguiram-se como como os pterodátilos e o resfriado – quando deixaram de fazer sentido. E eles deixaram de fazer sentido – exceto em museus, como lembrança para que nunca voltem a fazê-lo.

Fortaleza ontem ganhou mais um prêmio – dessa vez o de cidade de melhor transporte do mundo – e o ganhou pela filosofia de precisar o mínimo possível de transporte. Quase todo o necessário se encontra ao alcance dos dois pés. É mais outro – depois do prêmio de Mil Dias Sem Crime – a primeira cidade grande do mundo a vencê-lo.

E eu, morador de Fortaleza, esta Fortaleza que deveria ser, não me sinto diferente. Talvez devesse, ou não.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

22 de Abril de 1813 – A Revelação da Indústria Nacional

- Setenta e dois anos de Decência e de Vida Limpa ficam para trás.

O Duque de Covilhas tinha na verdade setenta e cinco anos e o Por que três destes quedarem de fora de sua arquicélebre declaração consiste até hoje em objeto de debates tanto acalorados quanto inúteis [além de vagamente esotéricos]. A verdade é que aquele que é denominado com alguma grandiloquência [e exagero] de Leão da Indústria Nacional disfarçava com sua cabeleira branca [que semelhava uma juba e que inspirou o apelido] uma determinação de fazer o que achava, certo ou não.

Meio Século antes, este dos poucos descendentes autênticos de lusitanos a fazerem parte do Pacto Inicial entre os quatro Potentados [que deu origem ao Brasil] teve raciocínio tanto claro quanto indecente: Os Ingleses dominam, e dominam pela Indústria. Se fizermos uma Indústria abertamente, eles mandam sua marinha para cá e nos matam. Portanto vamos fazê-la em segredo. E arrematava: Espaço não nos falta!

E uma indústria têxtil, completa com fundições de máquinas e trilhos para descarregar material surgiu entre os rios Teles Pires e Aripuanã [conhecidos pelos códigos R6IV e *&hU], com tecnologia de trabalhadores ingleses sequestrados. Os poucos espiões ingleses que souberam de algo sofreram curiosos acidentes, em portos, em estradas, ou comeram alimentos que não deviam.

Neste dia o Brasil enviou amostras de seus tecidos para o mundo, a um quarto dos preços de Manchester. O Duque podia mostrar [finalmente] sua mentira.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

21 de Abril de 1792 – O Herói Duvidado

Antônio de Souza-Lucrécio revoltou-se contra o Quinto Domínio. Suas motivações não passavam das de sempre [os revolucionários sempre provocam bocejos com suas indignações, que sofrem de inenarrável monotonia]: os elevados impostos, a fome dos camponeses, a boçalidade dos tiranos, a venalidade dos magistrados, e etc. etc. e muitos outros etc. O Quinto Domínio nada mais era do que a junção dos Quatro Potentados que dominavam o território brasileiro – esta junção [frustrando (como sempre) os que achavam que prenunciaria uma terra de leite e mel] levou a um Poder que conseguia ser mais Poderoso que os anteriores. O rebelde [como acontece com todos os rebeldes] rebelou-se contra esse estado de coisas e quis modificá-las. Acabou por modificar apenas o seu estado civil, de “vivo” para “falecido”, após a costumeira [e inexplicavelmente sempre inesperada] reação do Poder. Hoje [elevado a Herói] Antônio de Souza-Lucrécio é [com inteira justiça] incensado como Herói do Grande País de Hoje. Ave!

Trata-se da História Oficial, composta [normal e até esperavelmente] de pedaços alinhavados de memórias, documentos, desejos, opiniões e crassas falsidades, empacotadas em firme papel de propaganda.

Como não faltam encômios, as versões desabonadoras também não escasseiam: seria um traidor; teve medo; não teve muita importância na conspiração; era feio; sofria de coceiras; fazia rituais satânicos.

Diante do habitual debate, tem-se a vontade habitual de olhar a ponta do nariz.

terça-feira, 6 de junho de 2017

20 de Abril de 1938 – O Brasil conquista a Europa

Nos momentos em que os outros o imaginam no Auge, você está realmente no Auge – do aborrecimento.

José Maria cruzou o Portão de Brandemburgo e trazia esses tristes pensamentos na cabeça. Ao seu lado o Generalíssimo René Chamant Nelly, o comandante das pífias porém necessárias forças occitanas. Do outro lado um certo Almirante Ramirez [era indispensável manter a aparência de que o Brasil invadira a Europa em nome de uma coalizão latino-americana, que existia mais no papel e em cerimônias como aquela]. Atrás deles, o 32º Batalhão de Infantaria Paraense blindado, o 73º Regimento de Cavalaria Aerotransportada de Irati e outras unidades de nomes sonoros que a ele causavam bocejos.

Terminava a Operação de Estruturabilidade do Hemisfério - um eufemismo para a invasão da Europa. As forças brasileiras entravam no coração do continente.

O Comandante brasileiro José Maria de Vasconcelos-Pereira [na parada da vitória] aborrecia-se com a irritação cutânea devido ao calor alemão de abril e aos dias a dormir em tendas. Também se aborrecia com aquela cerimônia. Na verdade aborrecia-se com tudo. Não tinha vocação para militar – não tinha vocação para nada – exceto talvez tomar sorvetes e ler trechos de enciclopédias – de preferência após ter realizado rituais algo primitivos com uma loura, ou uma morena [o sonho variava].

No palanque entre o Schloss e o Museu Velho o Comandante Brasileiro General José Maria ouvia discursos sobre a paz. Pensava [no entanto] em seu sonho.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

19 de Abril de 2341 – Manuscrito encontrado muito tempo além

Escrevo sobre um país que não deu certo de um planeta destinado à destruição em uma língua que ninguém fala, e isso, longe de me apequenar, me torna mais grandioso – ou o contrário.

Manuel de Gonzaga Oliveira [diz a lenda – que, como toda lenda, o mais provável é que seja falsa] escreveu sete peças teatrais, trinta e dois romances, dezessete ensaios de fôlego e cento e um opúsculos, sem contar as crônicas e os sonetos. Essas estatísticas, por motivos logo óbvios, são todas especulativas.

Manuel de Gonzaga Oliveira [nunca quis abreviar ou diminuir o nome] viveu numa ponta de areia na barra do Rio São Francisco [a única ainda livre da língua negra de restos químicos] no lugar em que este se encontra com o estuário do rio Doce [desde as mudanças de correnteza no Século XXII os dois rios virtualmente se encontram].

Viveu a maior parte da sua vida só, o que não era grande proeza no Brasil da época. Desde a grande depopulação do ano 2230 [que apesar de ser assim conhecida durou uma geração para se concluir] os brasileiros passaram de algo como um bilhão e um bilhão e meio [ninguém soube a cifra exata] para vinte milhões [o que também é especulação – alguns dizem que é muito menos]. Sobreviventes meio eremitas como Manuel de Gonzaga Oliveira viviam de cápsulas de comida inutilmente enterradas pelas pessoas.

Sabia que escrevia para ninguém ler. Isso lhe dava um curioso orgulho. Embora tal também seja especulação, pois ninguém pôde lhe perguntar nada.

sábado, 3 de junho de 2017

18 de Abril de 1789 – Como obter tecnologia

Dizem que certo médico escocês tomaria inspiração de caso real ocorrido no dia de hoje com John Taylor. Nas frias ruas de Manchester [após três doses de uísque] o operador de laçadeira de algodão sumiu. Em um quarteirão foi visto, no outro nunca chegou.

Um par de dias depois Mr. Charles Robinson [um dos primeiros engenheiros de metalurgia em Edimburgo] deu um cálido beijo em sua esposa grávida – sem suspeitar que seria o último – sumiu ao retornar da casa de chá.

Quase um ano depois o mestre de fiação James Morgan Silvester não foi ao seu trabalho na segunda maior tecelagem de Cardiff. Desapareceu como os outros, embora no seu caso duas testemunhas jurem ter ouvido um grito de socorro perto da ponte – seguido do silêncio.

Estes casos [os únicos bem documentados entre milhares] permaneceriam sem solução por tempos, até que uma investigação [publicada não por coincidência na mesma data em 1912] revelou que por trás dos sumiços havia um plano [talvez diabólico] do Estado brasileiro da época – já que não se transferia tecnologia, não se vendia tecnologia – a mesma seria sequestrada. Operários qualificados ingleses seriam convencidos [na base da pancada e do saco para esconder] a irem aos grotões do Brasil para ensinar técnicas industriais.

Isso teria esclarecido o Dr. Arthur Conan Doyle que o mundo era cheio de mistérios, e que era necessário um detetive fictício com um nome estranho [Sherlock Holmes, por exemplo] para decifrá-los – mas talvez isso seja fantasia, ninguém sabe.