segunda-feira, 31 de julho de 2017

20 de Maio de 1735 – Por três séculos espero



Certo dia e por quatro horas e meia conversei com Jean-Jacques Rousseau. Encontrei-o numa birosca com anúncios de Brahma e Guaraná entre Itapajé e Forquilha [ou numa estalagem com vinho da Borgonha entre Paris e Genebra, depois de trezentos anos a memória me falha]. Sentamo-nos à janela [eu vinha de dar entrada no protocolo de mais dois processos – ele caíra na estrada havia semanas e nunca se sentira tão feliz]. A paisagem dos mandacarus [ou dos pinheirais do Vale do Loire] encheram nossos olhos e por muito tempo [sem importar quanto] não dissemos nada.

Depois falou - de garotas e de natureza [amores adolescentes por primas e por certa Madame que o acolhera – e de lagos de superfície espelhada nos quais gostava de remar].

Não me contou fofocas de filósofos – de fato, além de chamar Diderot de tolo e Voltaire de imbecil não tocou no assunto.

Falamos [para minha decepção] de frutas: eu o ensinei a comer mangas-jasmim [que ele não conhecia] e ele me falou como a natureza era sábia. Mostrei a ele a beleza do sol a entardecer além dos montes de pedra na caatinga e ele a partir daí e em rápido raciocínio concluiu que a sociedade não prestava.

Tomou mais gole de Merlot, sorriu e disse que precisava ir [os picos dos Alpes a pontear no horizonte]. Não me disse que compromisso tinha - eu sabia que não tinha nenhum.

Quanto a mim, dia seguinte protocolei mais processos. E por três séculos espero que ele retorne.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

19 de Maio de 1950 – Interminável Julho



Senfino Julio – esta inscrição [que os contemporâneos classificaram como nada menos que misteriosa] descobriram-na três equipes de arqueólogos diferentes, em escavações em três pontos virtualmente antípodas [duas exatamente sobre a linha do Equador e a terceira a 303 léguas de distância, a formar triângulo quase equilátero] e em espaços de tempo quase simétricos [sempre em maio, sendo uma em 1946, outra dois anos depois e outra agora] e tanta correlação gerou os inevitáveis debates sobre sua origem, não faltando os alienígenas verdes de três orelhas e a comunicação com espíritos do além.

Curiosamente as inscrições [duas deles em irrepreensíveis placas de bronze e uma de madeira] suscitaram a análise de historiadores, sociólogos, calígrafos, ufólogos, artistas plásticos e sensitivos paranormais. Ninguém [ao menos a princípio e por inverossímil que fosse] lembrou de chamar linguistas. 

Quando finalmente vieram, o campo de análise já se encontrava tão borrado por hipóteses, subteorias e contrarrevoluções conceituais que foi difícil a eles [como seria a qualquer um] escapar da corrente dominante, que atribuía tais inscrições ao uma civilização extraterreste com poderes paranormais.

Dois dos linguistas [no entanto e aplicando análise diacrônico-sintática simples] concluíram que se tratava de estranha língua destinada a paz, e que a inscrição dizia apenas: Interminável Julho. E nada disseram do porquê. Desnecessário dizer que isso exacerbou mais ainda os debates.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

18 de Maio de 1889 – A escravidão se ser-se



Maria Camila Chaek-Leuenroth sonhava. [De fato a filha do poeta Amadis Chaek sonhava desde o ventre da mãe – e lembrava]. Via uma caixa vazia, e dentro dele outra caixa vazia, e a partir daí cada sonho tomava seu caminho.

Em alguns, ela rasgava a caixa, com violência [Genghis Khan dos trópicos] com tanto mais drama porque o fazia com uma cimitarra recurva. Em outros, chorava [filha de médico ou operário] em frente às caixas, e elas [como que comovidas] desfaziam-se como pétalas de uma flor marrom.

Na maior parte das vezes ela abria uma após a outra – e quem variava, no caso, não eram as caixas – era ela mesma: às vezes quem abria era uma jovem que vivia nos trópicos [ou seja, a vida que ela vivia]; noutros, era príncipe Hamlet [que nunca, nem mesmo nesse momento, deixava de se atormentar com a fantasia de matar o Rei Cláudio]; noutras era um monge centenário cuidador de algum orago perdido pelas cimeiras dos montes Cárpatos – espantado com o fato de que o Senhor não o chamara para estar com ele naquela noite. 

Em todos esses momentos [e talvez por causa deles] não descobria o que estava dentro da última das caixas – no sonho, sempre alguém irrompia com a notícia da batalha de Waterloo ou com forte dor de barriga – e nunca se chegava ao final.

Maria Camila Chaek-Leuenroth descobriu [afinal] que, mais importante que que qualquer coisa que estivesse lá dentro, importavam os personagens que criava – e que superavam qualquer escravidão de passar toda a vida sendo a mesma pessoa.