quarta-feira, 26 de julho de 2017

17 de Maio de 1907 – O Sábio do Nada



John Locke [lá pelo ano 1700] descobriu que que as pessoas nada trazem dentro de si, e que tudo o que sabem [se é que realmente o sabem] vem depois – e que [essa é a inevitável consequência] pode ser perdido, ou desprezado.

Morais-Ferreira [que por coincidência tinha uma tia-avó inglesa, daí seu estranhíssimo prenome de Bathurst] chegara à mesma conclusão três séculos antes. Contrariamente porém ao sábio inglês [e seu imitador] não se conformara em manter todo o conhecimento que lhe fora conferido [ou empurrado] por outros. Decidiu despojar-se de tudo.

Para ser nada, nada melhor que se colocar no meio do nada – e Morais-Ferreira caminhou por quarenta dias e quarenta noites [assim diz a lenda, influenciada (segundo alguns) pelas andanças de certo profeta da velha Galileia]. Passou por 739 rios e riachos [os quais contou, com cuidado de esquecer cada detalhe depois] e depois que cessaram os cursos d´água, os bosques, as touceiras de bambus – depois, enfim, que cessou [quase] tudo, instalou-se em planalto, em lugar nem proeminente nem deprimido, e meditou [em nada].

As lendas [sempre contestadas por inverossímeis] dizem que em dois meses perdera a capacidade de fazer somas; em sete, não mais saberia dedilhar um alaúde; em um ano esquecera as línguas estrangeiras que aprendera e em cinco a própria.

Descobriu então [e talvez surpreso] que o Nada existia. E que a partir dele se podia saber Tudo.

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