segunda-feira, 14 de agosto de 2017

23 de Maio de 1944 – Um pouco de amor na água de coco



Eu não era quem era ­– disse-me ele, e não direi a você quem sou. Quando a mim, chame-me Graco, Caio, Ernando ou o que lhe apraza. A ele chamarei apenas ele. Tomávamos uma cerveja – na verdade não tomávamos nenhuma pois ele não bebe. Continuou [a mão no copo de água de coco]:

Eu pensava ser Machado. Ou Proust ou Shakespeare, como queira. Pensava em aquecer meus pés sobre uma pilha de livros que eu haveria escrito.

Não fiz nada disso. E não fiz porque não o queria. 

- O que você queria – e ao fazer esta pergunta tornei-me ele [calças curtas, talvez. Ou aos vinte, a caminho de aula talvez não muito interessante. Mais tarde, em algum escritório possivelmente]. E continuei, de súbito pesado como minhas palavras: Você se acha um fracasso?

Ao contrário, sou um sucesso. A mão no copo não tremeu. Obtive o que queria. Fui amado, e amei. Uma mulher. O meu eu nos meus vinte acharia isso tolo. Não o era. Era tudo.

E os livros, perguntei – ao lembrar que fora ele quem me mostrara Kant e Rousseau, e eu sempre ansiara pelos seus próprios. Esperava [confesso] um “não valem nada!”

Valem muito [disse-me]. E virão. Mas serão confeitos. Em uma deliciosa torta, com a qual eles não têm muito a ver, mas à qual não deixam de acrescentar certo brilho. 

Essa analogia culinária me surpreendeu. O sol não se punha [estava a pino] uma hora bem pouco romântica. Apesar disso pensei no amor. Sorvi um gole de água de coco.

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